sábado, 28 de maio de 2016

Nós, mulheres

Ser mulher é sangrar todo mês e aprender a conviver com as dores da menstruação. É temer andar na rua e dar de cara com um machista. Ouvir piadinhas de mau gosto e, quando for responder à altura, ainda ter que escutar que "falar palavrões ou besteiras" não é coisa do sexo feminino. Ainda precisamos tomar cuidado para não ser agredida, pois as estatísticas afirmam que, a cada duas horas, uma mulher é estuprada no estado do Rio de Janeiro. E o pior: esses crimes ganham uma repercussão discreta, a violência contra as mulheres é banalizada. As gerações de machistas e criminosos vão se sucedendo. E ainda tem muita gente que trivializa o feminismo. E não é através de mais violência que este horror será resolvido. É através da educação; formação de seres humanos e cidadãos com valores dignos. Pessoas que se revoltam e se sensibilizam só de ouvir falar que esses crimes existem.

Além desta realidade cruel, nós ainda convivemos com uma cobrança intensa para estar sempre dentro dos padrões de beleza: você não faz a unha? Não? Nossa, como assim? E a depilação está em dia? E o cabelo, você alisa?

Precisamos nos unir e lutar contra todos esses padrões de beleza. Cada uma deve ter o cabelo que quiser. Não há nada mais belo do que a diversidade, aliás, pessoalmente, não acho nada mais lindo do que os cabelos cacheados, rechaçados por esta loucura de paradigma. Também não podemos mais admitir a gordofobia. A mulher quer comer e beber sem se preocupar ou sonhar em caber em uma roupa tamanho 38? A decisão é dela, somente dela. Ninguém deve se meter. Se ela pesa muito mais do que todas as outras que correm atrás para se enquadrar no modelo de formosura, a escolha é dela, com certeza, ela é feliz assim.

E a pressão para a mulher engravidar, construir uma família? O conservadorismo está por toda a parte. As formas silenciosas de violência vão se diversificando. Até mesmo homens que se consideram defensores do feminismo e dizem lutar pela igualdade de gênero agem, no dia a dia, de forma cruel: passar quase uma década ao lado de uma mulher e depois fingir que não a conhece. Quando a encontra na rua, abaixa a cabeça, como se isso fosse natural.

Ainda há os homens que insistem em julgar as mulheres pelas roupas que elas usam. Quem gostar de saia curta, batom forte não tem o direito de reclamar de abordagens violentas, pois estão vestidas de forma sensual. É tão inacreditável um homem justificar o estupro por conta do apelo das atitudes e roupas das mulheres que parece mentira. Mas não é. Tem muitos homens, infelizmente, que pensam assim. Porém, nós não podemos abrir mão da forma como desejamos nos portar. Devemos, sim, nos unir e lutar para que a gente possa sair a hora que quiser, do jeito que escolher e, o mais importante, sem medo. A culpa da violência sexual é sempre do agressor. Nunca é da vítima. Quando uma é violentada, desacordada, e sangra, todas nós sangramos juntos. As lágrimas caem e não aceitam o crime. E, mais uma vez, vale lembrar: a violência não é resolvida com violência. Vamos nos manter unidas, na luta, nas ruas, encarando o problema de frente, indignadas, em busca de uma sociedade que forme cidadãos de bem.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Olivia

Menina sapeca que nunca vi, mas conheço minuciosamente a presença doce e marcante. Já preparo os livros para recebê-la com poesia, para amenizar a dureza desse mundo onde ela vai chegar. Assim como as belas histórias e prosas, um mar de folhas servirá de tapete para os seus primeiros passos, comemorando o outono e a sua estreia caminhando.

Será que ela puxará o belo irmão, que dá o Tom da beleza e do encanto? Ou será que ela será morena, como a mãe? Tropicana, cor das caboclas da mata, que estão abençoando-a desde o ventre materno. Dentro do útero, Olivia já recebe toda a proteção e amor da madrinha, que já reza e pede a bênção de todos os guias àquela menina moleca, que vai nascer dominando a arte de ser feliz. Não importa as escolhas que fizer, sempre encontrará a felicidade, o sorriso e a leveza. Estará cercada por uma família extremamente especial, desde os tios, os avós, aos pais: a mãe, uma mulher com um sorriso maior que o mundo e uma enorme generosidade; o pai, um homem que emana sensibilidade e bom gosto.

Por onde passe, seja nos Estados Unidos, no Brasil, ou qualquer outro lugar, terá o dom de encantar, seja por sua beleza,  simpatia ou pela extrema bondade que refletirá de seus olhos. Se depender da dinda, Olivia, você será uma grande leitora e apreciadora de música. Espero que, um dia, a gente cante juntas Paulinho da Viola, Cartola, entre outros.

Onde quer que você esteja, no mais confortável esconderijo, quero que sinta todo o amor do mundo. Receba toda a poesia aí dentro da sua amada mãe. Quando você nascer, já terá uma biblioteca, em construção, te esperando. E, como diz Paulinho da Viola, que você venha aprender a falar com os passarinhos, a dividir com quem não tem, a fazer tudo o que sente e a viver do presente.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A dose do santo

Sempre ouvi dizer que dose de cachaça não se pega de ninguém: não se rouba nem um tico sem pedir licença. Cachaça é pessoal, na dose exata do santo e de sua oferenda. Quem bebe a dose de cachaça dos outros padece na vida. Já quem divide sua garrafa generosamente garante amigos verdadeiros, capazes de compartilhar um momento intenso de encontro com o céu. Para isto, estava guardando uma das minhas preferidas, a Maria Izabel, autêntica, com nome de mulher charmosa. E não é que minha garrafa sumiu? Ela tinha destino certo, de agregar amigos e de agradar os santos, no entanto, um desalmado levou-me inteira. Fiquei sem o gosto docinho na boca, à espera de mais uma viagem à Paraty, terra da danada. E quem tomou? Não me interessa. O santo cuida deste Zé ruela melhor do que eu.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Para a avó Jandira


Ela nasceu em um reino encantado que até hoje não recebeu nome. Dizem que fica na região de Andaluzia, na Espanha. Talvez por isso, em sua casa, há flores e azulejos por toda parte. Em seu corpo, as rugas fininhas e a pele alva vão criando um caminho longo, com nascente desconhecida. A memória apagou os primeiros anos de vida daquela senhora de seus mais de 80 anos. Quando perguntavam sobre sua mãe, ou sua história de vida, ela pegava o leque florido - com firmeza - e começava a se abanar. Logo, uma lágrima rolava e encontrava um atalho no meio da pele macia, com marcas do tempo e contornos que misturam uma história oculta entre a Espanha e Brasil. No meio de tudo, estava ela, sempre atenta pra não perder mais nenhum pedaço de sua trajetória. Assim, o mecanismo de defesa foi manter o rosto sério, sempre em alerta. Olhinhos brilhantes, uma serenidade infinita, e mãos suaves de quem é capaz de abraçar o mundo - além dos filhos, netos e bisnetos-, seguindo a correnteza do tempo, à margem do rio, e pedindo a Deus para que sua fonte nunca seja capaz de secar; esteja ela onde estiver.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Novo amor

Todo amor começa no Recife ou em Olinda. Nos becos e ladeiras, à margem do Capibaribe, na orla de Boa Viagem, o som é sempre de encontro. Há uma brisa quente que sopra paixões. Assim, até o mais descrente torna-se absolutamente louco e irracional diante um outro ser, em um sentimento que ferve.

No Recife e em Olinda, as pessoas andam nuas, por maior que seja a quantidade de roupas que elas estejam usando. Não importa. Os corpos gritam, os sentimentos fluem e abraçam até alcançar o mais profundo nó entre os peitos suados, respingados de palavras cuspidas.

Fala-se de dor o tempo inteiro, pois, nesta terra, se reconhece, sem medo, este sentimento que predomina após o amor. Todos sabem que não há tempo previsível de cura, nem receita certa. Por isso, abrem uma cachaça porreta para afastar os maus pensamentos e reunir boas companhias. Também é constante a presença de um abraço pernambucano que chega de surpresa, com mais força do que as pernas das passistas de frevo, e com a precisão das alfaias do maracatu.

Enquanto isso, a brisa continua quente, sem dar refresco. Chega a dar um nó na garganta, talvez, por saber que os dias em Pernambuco são curtos; ou os pernambucanos e seus lugares são longos e grandes demais para uma simples visita. Porém, o alívio prevalece, pois a angústia e a mágoa voam em Olinda, mais precisamente em direção ao mar. Assim, podemos rir, falar bobagem, até se pegar totalmente paralisada com o sotaque cantado da terrinha.

De repente, tudo é pausa. Tudo é a voz daquele recifense na Bodega de Véio. Não tem jeito. Sempre que venho, ali estou, e garanto que nunca havia o encontrado. E desta vez, ele estava; e eu também. Ô, sorte. Encontro marcado? Talvez. No entanto, prefiro acreditar na beleza do acaso.

Eu, vidrada com sua guia de Xangô, com sua camiseta celebrando Chico Science, e com aquele sotaque irresistível invadindo todos os cantos de Olinda, não conseguia disfarçar o encantamento imediato. Era incapaz de falar, apenas de ouvir. "Pernambucana?", perguntou. Antes que eu pudesse projetar uma resposta, ele completou: "se depender de mim, daqui você não sai". E pronto. Resolvi admitir que sempre fiz parte dali.

domingo, 22 de março de 2015

Luto

Quando Pedro resolveu ir embora, levou minha motivação de acordar para vê-lo de olhos cerrados, até o momento exato em que o despertador iria forçar aquelas folhas verdes esvoaçadas a caírem no mundo, carregando aquelas pernas finas, que mais pareciam de mulher. Motivos de implicância garantiam as gargalhadas cotidianas, a cumplicidade e os silêncios acolhedores. Um amigo, sim, companheiro de vida, de tudo. Um irmão.

Reconhecia na sua insanidade uma coerência absurda. Fazia-me entender que seguir em frente é sempre a melhor forma de perder-se dos fantasmas. E agora, Pedro, seguir em frente sem você é possível? Sinto todos os nossos fantasmas, inseguranças e neuroses percorrendo nossa casa. E você com aquela mania de deixar a porta aberta para circular o ar, ventilar. Você sabe o quanto isso me irritava. Tentava disfarçar às vezes, para não ser chata, mas convenhamos que a porta fechada sempre foi o mínimo de privacidade que gostaria de usufruir. Enfim, que babaquice, não é o momento para debatermos essa questão.

Agora que você, meu irmão sensível, capaz de sentir toda a dor e toda a felicidade do mundo ao mesmo tempo, que vibrava por um amigo como se estivesse fazendo-o por um filho, desapareceu, as palavras fogem. As reflexões e leituras diárias desaparecem, com todas as referências. Tábula rasa, com lágrimas congeladas. Resolvo escancarar todas as portas imaginando sua presença e tentando sentir o bem-estar trazido por aquele vento abafado que adentrava nossa sala.

Queria eu ter feito isso mais vezes, me posicionar de frente à porta, ser surpreendida pelo vento nas costas para lembrar da sua gargalhada entrando em casa. E os apelidos diários criativos que duravam alguns minutos na nossa memória, mas agora marcam a ferro meu coração. Aquela história de sua gargalhada no rádio, seu bom humor na minha vida, sua presença ao meu lado era toda verdade. Completamente louco isso tudo, como nós dois, em nossa dinâmica da maluquice, nos compreendíamos e nos amávamos incoerentemente. Nada fazia sentido, e agora há a maldita dor física encravada no peito. Ele, que sempre conseguiu tocar nas minhas feridas mais profundas, não está mais por aqui para achar o ponto de tensão e mexer insistentemente para tirar os nós e me fazer sorrir. Amputar a melhor parte da sua vida é uma experiência que não desejo a ninguém.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Mulheres passarinhas


Ainda não é 8 de março, mas já é Dia Internacional da Mulher. A cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas no Brasil. Na TV, as propagandas de cerveja colocam corpos esculturais gelados à disposição dos homens. As curvas em formas de peitos e bundas passam servindo a bebida, sendo alvo dos olhares de “admiração” e “desejo”. A mulher-objeto não tem voz, ela é instrumento sexual, fetiche, apesar de não se colocar nessa posição, não se sentir à vontade com o assédio ou simplesmente detestar qualquer tipo de abordagem sexista.

Enquanto o comercial anuncia o corpo perfeito e vende cerveja para o gênero masculino (ignorando completamente que as mulheres também são consumidoras de bebida alcoólica), uma, a cada cinco mulheres, considera já ter sofrido “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”. Algumas não sabem explicar o tipo de agressão: muitas vezes, a hostilidade é silenciosa, em locais onde o machismo é questionado, porém, não combatido de maneira eficaz, como em ambientes de trabalho. O Brasil, por exemplo, representa uma das mais desiguais relações entre gêneros: em 2013, o Índice Global de Desigualdade de Gênero, apontou que os homens ganham aproximadamente um salário 30% maior do que o das mulheres com o mesmo grau de instrução e a mesma idade.

Também relacionado ao universo de emprego, apesar de proibido por lei, quantas companheiras já não ouviram histórias de demissão após o retorno da licença-maternidade ou já foram questionadas em entrevistas de trabalho se pretendem ter filhos? A famosa dupla-jornada não é bem vista pelo patrão. Não importa se as mulheres dedicam-se cerca de 21 horas por semana às atividades domésticas, enquanto os homens gastam no máximo 10 horas cuidando do lar. Também não interessa se todos os seres humanos dependeram de alguma mulher para colocá-lo, aqui, neste mundo. A lógica do machismo predomina e avança.

Quanto às relações afetivas e sexuais, a mulher, mais uma vez, é colocada no papel de objeto. No início de 2015, um dos principais sites brasileiros colocou no ar a seguinte enquete: “Você acha que o beijo forçado no carnaval é natural?”. A própria pergunta já desmascara uma lógica asquerosa de que as relações são movidas à força, em uma dinâmica desigual e criminosa. No mesmo período, uma marca de cerveja criou diversos slogans que estimulam a violência sexual, com dizeres do tipo “esqueci o não em casa”. Esse é o machismo encravado, regulado e legitimado pelos nossos governantes, pela nossa imprensa e, finalmente, pela nossa própria sociedade.

A construção dessa dinâmica de forças, em que o gênero feminino é sempre subordinado, ganha ainda mais relevância entre quatro paredes. Em mais de 80% das agressões sofridas por mulheres, o marido ou o namorado é o criminoso. Assim, a vida privada torna-se central na luta contra o machismo. Entretanto, as agências publicitárias ignoram essa realidade e ainda apelam para campanhas em comemoração ao dia da mulher, levantando a bandeira do consumo, da vaidade e da valorização daquela que cuida do lar. Existem, sim, donas de casa, mulheres vaidosas, consumistas, assim como as socialistas, educadoras, economistas, engenheiras, atrizes, vendedoras, atletas, médicas, militantes, pesquisadoras, magras, gordas, altas, negras, morenas, louras, ruivas, baixas, entre infinitas categorias incapazes de abranger o imenso universo feminino. Desta maneira, nada ou ninguém conseguirá representar a diversidade do gênero feminino, a particularidade de cada mulher, seu desejo mais profundo e seu direito de ser respeitada. Reconhecendo tantas diferenças, nós mulheres devemos sempre nos lembrar: toda mulher é minha amiga, mexeu com ela, mexeu comigo. Machistas não passarão! Nós, passarinhas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Foi-se carnaval

Ainda é terça, mas já parece domingo. A voz que deveria pronunciar que o carnaval acabou não aguenta mais cantarolar nenhuma marchinha alegre, está completamente rouca e falha. Cansou-se de sorrir e de se expor por aí. Perdeu-se nos pontos de ônibus à procura de um transporte público que a levasse para casa, não encontrou nenhum táxi, viu estações de metrô fechadas e teve que se contentar com o trajeto a pé. 

A rua foi seu lar. Assim, em cada avenida sambou completamente fora do ritmo, tentando manter o cílio postiço no devido lugar, enquanto a cola grudava em seus dedos e em sua fantasia customizada. Maldita hora que recusara a aprender truques de maquiagem com sua mãe. Porém, jamais imaginou que sentiria falta de uma estratégia de fixar os cílios de pavão, combinando com sua fantasia de paetê azul e penachos que a faziam coadjuvar um show de Ney Matogrosso, em pleno centro da cidade.

Ô, pássaro formoso! Na verdade, não lembrava se estava de pavão na Gamboa ou em Madureira, ou talvez, quem sabe, havia sido em uma das passagens pelo Mam? Mas quem se importa? Usou tantos adereços que perdeu-se entre plumas. Todos os dias viraram um bloco carnavalesco em que o desencontro foi a grande graça. A memória, prova de fracasso. O fracasso, por sua vez, status de sucesso.

Tentava ouvir os sopros, no entanto, suas pernas cansadas mal conseguiam acompanhar aquele insistente surdo de primeira. E aquela batida não permitia localizar qual era a música tocada pelo bloco. A percussão cadencia a multidão, mas confunde a cabeça do indivíduo. Neste momento de perdição, quando não sabia o que fazer, segurava uma serpentina e a jogava o mais longe possível, "em direção ao futuro", sonhava.

Cada fita colorida, em tom pastel, numa dissintonia com as saias de tule, os strass, purpurinas e adesivos nos olhos de cada mulher, e as tiaras de flores vibrantes, sumiam no meio da multidão. Não importava. A sua maior diversão era abaixar e procurar os restos de cada serpentina jogada. Aquele papel carnavalesco ficava, para a maioria das pessoas, obsoleto em segundos. Como um jornal do dia anterior, que hoje não serve para mais nada.

Percebeu que as coisas sem utilidade a interessavam muito. E enquanto todos seguiam o bloco e tentavam acompanhar as músicas, - mesmo sem saber cantar nenhuma parte da letra - ela entreteu-se na dinâmica de jogar a serpentina, observar seu destino e, logo, correr atrás dos resquícios do papel. E pronto. Construiu seu cordão com tiras pisoteadas, molhadas de cerveja, manchas de batom e de brilhos. Após a última batida do bloco e exaustão do corpo, resolveu seguir para casa, já arrependida de se despedir precocemente do carnaval. Para evitar a nostalgia antes mesmo da chegada da quarta-feira de cinzas, com jeito de domingo e dia dos finados, pegou o bolo de serpentinas e guardou em sua carteira. Caminhou serena, pronta para encarar o desengano e o retorno à realidade. Havia, assim, guardado para si os pedaços do carnaval.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Medo de amar

Enquanto alguns têm medo da morte, de doença, da violência urbana, outros temem viver. E se recusam a compartilhar um dos sentimentos mais nobres que o ser humano é capaz de conceber: o amor. Amar verbo intransitivo, amar verbo transitivo direto e indireto. Um mar de possibilidades de se transbordar, perder o norte, não se reconhecer, agir de forma inadequada, passar vergonha, não ser correspondido, esperar por uma resposta e, sim, muitas vezes, sofrer uma desilusão.

Há muitas possibilidades na vida de um amante, inclusive a dor da separação, do desencontro ou traição. No entanto, diante desta ameaça, vejo pessoas que já se apresentam pedindo desculpas por estarem impossibilidades de amar. Homens interessantes, sensíveis, que fogem de qualquer investida por dizerem que são incapazes de cicatrizar suas dores passadas. Assim, cria-se uma dinâmica de corações retalhados, muitos em pedaços frágeis, não dispostos ao risco de levarem um novo rombo.

Seremos amigos, então. Amigos? Amigos não somem, não ficam constrangidos à toa, não pensam antes de enviar alguma mensagem, procuram sempre, choram as mágoas... enfim, esse papo de amigo também não cola. Seremos apenas seres medrosos, daqueles que não conseguem se livrar do orgulho próprio, da nossa imagem consolidada no espelho de nossa imaginação como um ser independente e bem resolvido? A vida sozinha, sem dúvida, traz muitos benefícios, e um deles é justamente a percepção de que nascemos inevitavelmente para nos relacionarmos. A partir dos relacionamentos, sejam os de amizade, trabalho e pessoais, é que surgem os maiores frutos. O pacto em não se relacionar, ou  não se envolver, é uma escapatória para aqueles que não sabem perder o controle, têm desejo de dominar e, por isso, sofrem, na tentativa frustrada de domar os seus próprios sentimentos.

No entanto, para escapar da dor e manter a aparência de forte é preciso abrir mão de se envolver com as pessoas? Ou deve sempre se desculpar por não desejar gerar nenhuma expectativa? O que seria essa expectativa? Quem teme gerar expectativa no outro é quem automaticamente cria histórias mirabolantes na cabeça ao invés de viver o momento. Talvez, o homem da expectativa tenha criado um amor platônico, perfeito e eterno, em sua mente. E pronto. Aquilo lhe basta. Ou não lhe basta, mas ele segue vivendo, lutando para abrir as janelas da casa e deixar sua mente ventilar, enquanto afasta qualquer pessoa que insiste em se acelerar por perto do muro.

No plano real, qualquer palavra descuidada dita por uma mulher é um atestado de proximidade que equivale ao pior de todos os erros: esperança em criar vínculos, expectativas ou simplesmente a formação de uma relação afetiva. Deve-se temer ao pronunciar qualquer palavra, evitando a sentença do distanciamento, de ultrapassagem de todos os limites de uma relação superficial, virtual, de amizade, que jamais deveria ser interpretada de outra maneira. Assim, por mais que você esteja interessada em conhecer alguém, conversar, se aproximar, cautela nunca é demais. Nossa geração é a do medo de se entregar, de esperar, de sonhar e, mais ainda, do pânico da possibilidade remota de que surja alguém capaz de cuidar do nosso coração retalhado. Este, sim, o senhor dos medos e maior bônus, é para os poucos desprevenidos que aguentam muita emoção.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Para um amor no Recife

Não sei bem quando foi, o tempo marcava o compasso do frevo. Perdia-me facilmente na tentativa de acertar o passo, equilibrar a cachaça e buscar os seus olhos na multidão. De longe, ouvi seu sotaque pernambucano e aquilo foi suficiente para me apaixonar. Não deu em outra, você logo sacou que eu era sua. Aí veio o Hino do Elefante de Olinda, com aquele refrão poderoso, e eu chorei. Sabia que meu coração estava entregue. E aí, você sorriu. E mesmo gargalhando, perdido, pro ar, era incapaz de se desequilibrar. Conseguia seguir os passos do frevo, daqueles que só as passistas faziam, dando-me o atestado de pernambucano autêntico. Você se ajoelhava e subia com uma facilidade comovente, que me vidrou. Sim, entre confetes e serpentinas, venho te oferecer com alegria meu amor. Fitando seus olhos, sem vergonha nenhuma, gritando na sua cara que tudo é você na imaginação.

E pronto. Ali tudo ocorreu, tudo para que eu largasse minha vida rumo ao Recife. Apesar de sonhar em morar em Olinda, convenceu-me de que seria melhor nos instalar em Casa Forte, à beira do Rio Capibaribe. Cantando, nêguinho, a língua do frevo, zoando meu sotaque carioca, você me fez renascer nordestina. Assim, do Rio de Janeiro, não sobrou nada. E do nada fez-se tudo.

A sua mania de ouvir discos arranhados na vitrola de seu avô, o jeito que só você sabe declarar amor ao Capiba, os olhos marejados ao me ouvir cantar trêmula "Madeira que cupim não rói". E a paixão ao falar da música de sua terra, que, perdoe-me, virou um pouco minha também, de Chico, Karina, Mombojó, Academia da Berlinda, Siba, Eddie. Os olhos saltam quando você fala suavemente, e eu sinto as águas do Capibaribe entrarem em nossa casa, molhando as plantas. Cada vasinho de uma cor vibrante, como o domingo de carnaval, em que nos conhecemos. E faz tempo, mas foi ontem, e poderia ser amanhã.

O frevo, o mar quente de Boa Viagem, você rindo do meu medo de tubarão. E a gente decorando todas as canções pernambucanas. E o rufar das alfaias dos quatro cantos decorando as paredes da nossa casa. Sem querer, eu puxando o sotaque nordestino numa tentativa de pertencimento a algo que já havia me tomado por inteira. E assim foi, a cada dia, nossa rotina parecia um eterno carnaval. Caminhando no Marco Zero, no carro, no ônibus, era só frevo-canção, daquele que anuncia a saudade. E Capiba virou nosso amor, assim como a Nação Estrela Brilhante, os filmes de nossa cidade, O som ao redor, Era uma vez eu, Verônica, tudo. E tudo de nosso, agora, é nada. Só de lembrar da Bodega de Véio dói tudo, e, pra piorar, não posso mais me apegar a um frevo-canção. A vida é triste e cheia de dissabores, ensinou Capiba. Agora, não tento nem arrumar palavras para tanta distância, tantos quilômetros, tantos sonhos. Não há cachaça que tire meu amargor. Para meu amor, no Recife, haja aperto para estancar o sangue e limpar a ferida. Com atraso, perdi o tempo do maracatu, e a saudade me embaraça até hoje. Mas continuo tentando, sem sucesso, pronunciar a minha dor.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Perda

Chorava feito uma criança recém-desmamada, sem nenhuma estrutura, sem nenhum pudor em exibir-se num buraco sem fundo. As lágrimas pareciam já secas, mas as expressões dramáticas não paravam de evoluir. Quem passava por perto ficava constrangido em interromper aquele encontro solitário e preciso com a tristeza. Porém, o barulho daquele homem entregue ao pranto fez com que uma mulher parasse tudo, numa tentativa de ajudar o desconhecido.

Não fazia ideia de quantos anos aquele garoto ou homem teria. Aquela posição curvada, impotente, transformava-o em um adolescente. No entanto, as marcas e a barba no rosto entregavam uma certa experiência de vida. Por que chorava copiosamente, ali, no meio da rua, na frente de todos? Ele mal conseguia respirar e, menos ainda, pronunciar algumas palavras. Alguém morreu?, perguntou a mulher, com medo de ouvir uma história trágica de quem havia perdido toda a sua família em algum acidente. Nessas horas, só conseguia pensar no pior.

Ele pausou o choro e tomou ar, negando a morte de alguém próximo, mas alegando a sua própria morte. "Ela me deixou. Não tenho como viver sem a única pessoa que fui capaz de amar durante toda a minha vida. Jamais a esquecerei, sinto-me morto. Não aguento mais um dia desta ausência latente". Ouvir aquele apelo gerou um alívio na senhora, que mirabolava doenças incuráveis, tragédias, entre outras coisas que o tempo nem sempre cura. Ao tratar-se de desilusão amorosa, ela reviu um filme de seus 54 anos de amores e desamores entregues ao vento.

Não gostaria de contar suas próprias experiências, pois poderia parecer pedante, comparando as formas como cada um lida com a dor. Assim, em silêncio, resolveu abraçar o homem, com toda a força de quem criara sozinha três filhos para caírem no mundo, e não o largou mais. Foram minutos daquele abraço forte, marcando presença, até que o choro cessou. "Você já foi abandonada?", perguntou o rapaz. Sem incomodar-se com o tom invasivo, a mulher mal teve tempo de refletir quando as palavras interromperam seu lábios fechados: "E como. A vida é abandono, querido. Ou você abandona ou você é abandonado, uma dinâmica cruel e realista. Mas, digo sempre aos meus filhos, aproveite as perdas pronunciáveis. O que mais dói é o que a vida tira e a gente nem sabe colocar nome". Perdas sem nome, desaparecimentos que não são mortes, fugas incompreensíveis e dores na alma. Sim, a vida é capaz de nos tirar coisas ainda mais dolorosas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Algumas doses

Acabou-se com um atraso de anos e incontáveis mágoas presas. Daquelas difíceis de colocar pra fora, nem com uma porrada na cara aquele bolo de sentimentos misturados era capaz de construir-se em uma frase compreensível. Durante o tempo o açúcar cristaliza, já o amargo vira pus, infecção não diagnosticada, escondida embaixo de muitas camadas de pele que camuflam o cheiro podre de palavras não ditas, verbos inexistentes e lençóis amarelados esperando a hora de serem jogados fora.

Não sabe como decidiu que havia se atrasado para ir embora. No entanto, quando foi, pegou tudo que havia construído durante anos e partiu. Tudo se resumia a quase nada. Anos construídos por afetos destruídos em poeira de apartamento miúdo, em obra inacabada que impregna os olhos de cisco, deixando a realidade turva. Colocou o que restou de tanto tempo, o que havia sido salvo pelo mofo e decidiu seguir. Apesar de todas as cores e fotos lembrarem o atraso, estava cansada de ter perdido a hora.

Era a hora de seguir. E resolveu colocar a cabeça para esquecer toda uma vida. E está nessa até hoje. Segue na luta, tirando o pó, contrariando as lembranças, as músicas, as expectativas. Insiste em aprender a ser só e a reaprender a caminhar. Toda vez que acha que se livrou das mágoas, vira algumas doses de cachaça para lembrar que a dor faz parte de si. Na tristeza se reconhece e se abastece. Desce mais uma dose de cachaça para melhor instruir-se na tarefa de viver.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Não

Irritavam-me profundamente as palavras descomedidas que saíam de sua boca naturalmente. Nunca era capaz de perceber quando cometia alguma gafe ou excedia-se nas piadas. Aqueles dentes em demasia, o sorriso espontâneo cativando todos ao redor da mesa. Tudo aquilo transformava-me em um bobo observador. Às vezes, perdia-me em seus gestos nada meticulosos, mas com uma elegância de gente que sabe se impor e assume o que quer.

Talvez essa sua vontade expressa em cada parte de seu corpo, em cada pausa da sua voz grave que sabia dizer exatamente o que se passava dentro da cabeça esperta, prendera-me a ti. A sua certeza era a resposta para meu silêncio eterno. Uma mulher que não tem medos de ouvir não, de dizer sim e de parecer inadequada. Aliás, imagino, você nunca deve ter pensado sobre adequação, normas sociais. Enquanto muitos se paralisam diante da dúvida e da insegurança, você simplesmente já escolheu seu caminho. Mesmo sem querer, ainda é capaz de me dar outra lição, ensinando-me que não basta fazer as escolhas, é preciso assumi-las e saber que, muitas vezes, elas serão equivocadas. E aí, você começa a gargalhar contando seus fracassos, suas histórias de amores platônicos - para desespero do meu sentimento de posse-, as situações desagradáveis e as vergonhas que passou. Como sempre, transformando-as em ótimas histórias a serem compartilhadas.

Porém, agora, percebo o quanto me incomoda lidar com a sua naturalidade em viver. Quando prefiro recolher-me em cicatrizes, você mergulha antes de saber se o mar será capaz de te abraçar. Observo a sua maneira torta de caminhar pelas ruas, sempre olhando para os dois lados, admirando cada espaço do céu, e se esquecendo de ser cautelosa com os buracos no asfalto. "O máximo que pode acontecer é eu tropeçar", você dizia, com um sorriso no rosto.

Mesmo quando te vejo só, nunca te vi desamparada. Os seus braços são capazes de agarrar o mundo, da mesmo forma que sua voz emana a condição apaixonada de tropeçante pertinaz. Uma mulher que deixa o vestido voar no bueiro, imita o rapaz grosseiro que é obrigada a conviver, entorna a dose de cachaça de uma só vez e sabe reconhecer quando uma relação chega ao fim. Deveria eu ter aprendido a aproveitar o seu tempo de sim para, agora, ser obrigado a entender e a lidar com o seu singelo não. Não expressamente dito, de forma clara, nada sutil, e certeiro em seus passos de negação.

sábado, 8 de novembro de 2014

Era ela, era eu

Havia chegado antes da chuva, a tempo de me esconder embaixo dos Arcos. Estranho estar ali, sozinho, naquele local onde sempre estava a dois. Contudo, o tempo já havia passado e os meses embolados transformaram-se em quase dois anos de ausência. Não lembrava como era estar só e, ao mesmo tempo, sentia-me absolutamente desamparado ao lado de qualquer pessoa que não fosse ela. Sem perceber, já fazia parte da fila para comprar ingressos para um show nada especial, quando surgiu um amigo atravessando os pensamentos.

Era ela na cabeça e ele ao meu lado. Não sabia se deveria olhar nos olhos do cara, pois encarar dificulta qualquer estratégia de deixar a mente correr solta. Porém, divagar tornara-se um hábito incontrolável e, sim, de fato, deveria forçar-me a prestar a atenção ao papo sobre... perdi o início. Perguntou-me algo, mas agora realmente não sei o que dizer. Peço, por favor, para repetir. Ela já era. Sobraram os Arcos, a fila, a chuva, com a maioria de rostos desconhecidos, e ele, gente boa, perguntando sobre filhos.

Cara, então, poderia ter um molequinho ou uma menina de nove anos, mas na época resolvemos tirar. Porra, quem sabe estaríamos juntos, com o filho. Inconscientemente falava no plural, merda de ato falho. Às vezes, também notava que a conjugação verbal embaralhava-se, passado, presente, futuro, tudo misturado com lamentações. Muito poderia ter ocorrido. Se o tempo tivesse passado de outra forma. Papo brabo esse de filho. Como seria agora ser pai? Era ela a mãe, era eu o pai de ninguém. O amigo, ele, não soube disfarçar o constrangimento quando viu minha cabeça ir ao encontro dela. Talvez vocês ainda possam ter uma cria, disse, claramente em um esforço para me animar. Porém, agora eu já era novamente ela. Era ela a mãe daquele rebento vazio que fecundou em meu peito ao partir.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O gato

O gato
encara
cara a cara
todos os vizinhos do prédio ao lado
e das redondezas

sua dona insiste
em chamá-lo de filho
e de conversar com
aquele ser felino
de temperamento
levemente selvagem
com pitadas de carinho
na região da nuca e do pescoço.

Fecha os olhinhos le chat
escondendo o seu azul
pois
não é afeito a exibições e
as pessoas insistem 
em tirar fotos daquela cor tão 
profunda que existe apenas
nos olhos do gato, que
dorme escondido
debaixo da cômoda
dentro de uma cestinha
que deveria servir pão
aos convidados,
mas foi utilizada como cama
pelo pequeno conquistador.


(texto de 13 de janeiro de 2014)


terça-feira, 28 de outubro de 2014

O perdão que não veio

Doce ilusão esperar sua ligação, ouvir a voz doce, a gargalhada cotidiana, como se nada tivesse ocorrido. Por mais que eu tivesse tentado tirar de você o seu filho, bem mais precioso, além de ter sido agressivo, perdido a noção do limite, tentando te controlar, aparecendo na portaria do seu prédio, em busca de alguma prova de que você não merece mais meu respeito, nem minha expectativa, eu esperava um telefonema.

Apesar de eu não ter encontrado nenhum rastro de traição, nenhuma palavra de ódio ou jura de inimizade, sofro, talvez de forma mais intensa, pela indiferença. Você sumiu do meu Rio de Janeiro. Por onde andas? Empenho-me atrás de vestígios, fotos, marcas de seu perfume, da sua risada escandalosa, no entanto, você tornou-se um vulto. Poucos conhecidos a veem por aí e, admito, é duro saber que você continua por aí, disponível para a vida. Eu gostaria de te prender, mas não posso. Não sou capaz de dividir, valorizar, abrir mão, da mesma forma que confessar que desejo-te presa, imobilizada, é ardiloso. Sinto-te livre e ameaçadora, capaz de gritar, de dizer-me verdades dolorosas, de ressurgir da escuridão refeita, com a pele irretocável e o sorriso de sempre. Você sabe se resguardar, enquanto perco-me nas noites em claro.

Tudo ao meu redor continua o mesmo: vou aos mesmos lugares, encho a cara em busca de uma inspiração que não chega, trabalho no mesmo local e continuo, como você sempre disse, fingindo que estudo. Eu vou às aulas, mas acho aquilo extremamente desagradável. Ao chegar em casa, só tenho tempo de abrir uma cerveja ou um vinho daqueles que você escolheu durante uma de nossas viagens. Além disso, talvez tarde demais, devo reconhecer: a casa não é minha apenas.  Cada canto tem sua cara: as cores, os objetos, os quadros na parede, as prateleiras de livros e dvds. Tudo tão seu que chega a ser difícil encarar. Entretanto, há meses encaro. Já me acostumei a conviver com seu gosto, seu ambiente, como se fosse só meu.  Suas coisas ainda estão na estante como se fossem minhas. Eu não te devolvo. Sinto a falta até mesmo das caixas transparentes onde você organizava seus brincos e pulseiras. E aquela luminária de forma de lâmpada, tão inútil, onde está? Os seus imãs de geladeira e cartões postais? Gostaria de me apossar de cada coisa, pois sei que tudo aquilo está impregnado do seu olhar. Perdoe-me, deveria dizer, por estar ocupando o lugar que fora de nós dois. Perdoe-me, já deveria ter dito, por estar vivendo sozinho há tempos, ignorando tudo o que deveria envolver um casal. Perdoe-me, não tenho coragem de dizer na sua cara, por me apropriar do seu bom gosto e de sua casa. Apesar de tudo, agora, desejo que você seja feliz.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O garoto

Desde pequeno não aprendera a dividir as atenções. Talvez por sofrer a ausência do olhar fraterno dos entes mais próximos, havia criado a estratégia de não abrir mão, jamais, do seu espaço, opinião, presença e voz. Então, por mais que se escondesse em uma casca nos momentos convenientes, na vida, em geral, sempre buscava os holofotes.

Em todos os lugares, era o primeiro a gesticular, a falar alto, a forçar intimidade com pessoas que sequer sabiam o seu nome. Se percebesse que era possível tirar proveito de alguma situação, projetava a fala de forma doce e envolvente, como uma criança em busca de doce, construindo um personagem simpático, dedicado e extremamente dinâmico.

No entanto, quando não notava necessidade de estar em evidência, pois o local não representaria nenhuma vantagem, fugia de todos. Não importava se estava acompanhado, se a ocasião pedia uma certa destreza: ele era movido pelo senso de oportunidade. E a lei da oferta servia: se não havia o que ganhar, não havia motivos para falar, sair da bolha, conversar de igual para igual.

Alguns olhavam para o garoto e o consideravam tímido, afinal, quando o seu humor não estava em um dia privilegiado, era difícil arrancar até mesmo um boa noite daqueles lábios. Porém, quem o observava sabia que ele escolhia a dedo com quem deveria se abrir. Nada de falar de problemas, defeitos, questões pessoais. No máximo, esboçar um sorriso, expor suas qualidades, na constante tentativa de construir um papel interessante, com referências culturais antenadas, conhecimentos e bom humor. Passava o tempo contando vantagens e, logo, o papo cessava. Mesmo assim, não entendia o motivo da perda de assunto.

Sozinho, não conseguia nem se olhar no espelho. As camadas de vaidade, de orgulho e prepotência o afastavam de seus sentimentos verdadeiros. Por mais que tentasse andar sempre em grupo, jamais havia sido uma companhia completa, generosa. As concessões feitas eram sempre cobradas com garantia, juros e todos os direitos extras. Conseguia atrair algumas mulheres, ter casos, no entanto, nenhuma havia tocado de fato o seu coração vaidoso e solitário.

Após os encontros, perdia-se na cama ao lado de um ser indisposto a se submeter ao seu estilo de vida tão fechado. Assim, a solução era sair de casa, esquecer o apartamento enclausurado, com as janelas trancadas, a pia lotada de louça acumulada e o chão branco manchado pelos sapatos que utiliza diariamente para fugir de sua rotina e cair na rua. Não importa o local, deve estar sempre cercado de gente, muita gente, bebidas em demasia, barulho, música, tudo que evitasse o vazio e um encontro a sós. Para ele, era impossível aguentar o silêncio da sua própria imagem. Na multidão disfarçava sua solidão em forma de vaidade. Não percebia, mas entrava num labirinto, onde estava predestinado a jamais se enxergar..

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Choro

Neste dia de sol, por que não consolidamos nossa amizade de anos e vamos à praia? Ninguém pode perder o contato assim, do nada.

A menina, tão pálida, com o rosto inchado de quem havia chorado uma noite inteira - ou quem sabe mais -, silenciou. Tentou virar pra trás em um gesto brusco, e recuou. Sentia-se incapaz até mesmo de desviar-se daquele sofrimento. Respirou fundo, focando na terapia junguiana, que durou mais de cinco anos de exercícios respiratórios e relaxantes que, agora, não valiam de nada.  Resolveu encarar o homem e procurar o olhar de quem esteve ao seu lado durante mais anos do que todas as suas analistas somadas. Não encontrou.

Desperdiçara tantas sessões terapêuticas, perdera toda a cumplicidade construída em cada segredo e a cada noite compartilhada. Frustrada, resolveu apelar para todos os conselhos e frases clichês dos amigos ao tentar segurar o choro: "ele não merece te ver chorar", "quem ele pensa que é", "você é muito para ele", diziam todos os seus queridos, em coro, num grito de apoio que entrava por um ouvido e ficava preso como um nó na garganta. Todas as palavras carinhosas, os ombros disponíveis para as horas frágeis, cada canção ouvida na tentativa de cicatrizar a ferida: tudo vinha na cabeça, entretanto, nada segurava as insistentes lágrimas.

Todos os dias chorosos de reflexão, qualquer esboço de força recomposta, desapareceram naqueles instantes. Havia sido casada com aquele homem e, mesmo com muito esforço e preparação, não conseguia reconhecê-lo. Uma completa falta de sintonia na comunicação, no toque, nos olhares descruzados.

Antes de racionalizar, o pranto falou mais alto. E o rapaz, por sua vez, deu um passo atrás e escondeu as mãos, para evitar suas marcas e sua parcela de culpa em cada lágrima derramada, em um choro latente e sincero.

O garoto estava extremamente angustiado, sem saber como lidar com a tristeza da mulher. A cena refletia o fracasso da felicidade a dois que, um dia, havia proposto. A vaidade desmoronada. Ele, que sempre posava de marido perfeito, via, à sua frente, a mulher despedaçada. E permanecia ali, incapaz de agir. "Para!", implorava em silêncio.

No entanto, ela, finalmente, havia desistido de se mostrar forte, superior, inabalável. Após a primeira lágrima, como uma vingança, uma prova incontestável da infelicidade a dois, da incapacidade de convivência harmoniosa, resolveu chorar tudo o que guardara durante anos. Restava a ele, na posição de menino, encarar o laço perdido.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ruptura

Lembro-me das vezes em que conversávamos rindo sobre o momento da separação, tentando orquestrar uma possibilidade remota e absolutamente plausível, distante dos nossos olhos, mas próxima de qualquer estatística ou probabilidade de casais que estão juntos há anos. Ou casa ou racha. Primeira opção. Mas, e aí? Casar não impede que a possibilidade de rachar ande sempre por perto.

Assim, prevendo a dureza dos desencontros, a gente encenava nossas brigas, a separação, cada reação de um futuro distante. Por mais louco aquilo parecesse, achávamos que lidar com a possibilidade da ruptura era uma boa forma de prever a permanência daquela cumplicidade, do carinho, do afeto. No entanto, agora, de improviso, não decoramos os gestos, nem as palavras. Ficou um vazio repleto de silêncios e angústias.

Tudo no mesmo lugar desordenado. Não consigo mais identificar o que deixava aquilo ali aparentemente em ordem. Houve muitos momentos de sintonia, que perderam-se no meio das caixas de papelão, das roupas emboladas, dos móveis fragmentados. Aquele bairro caótico havia se transformado no quarteirão da paz quando comparado à minha cabeça transfigurada.

Desnorteada, sigo o caminho da volta, sem lembrar o que me fez seguir adiante. Tudo parece igual, exceto minha imagem no reflexo do metrô. Não me reconheço. Entretanto, os conhecidos que fazem o caminho oposto me cumprimentam, e eu sou obrigada a retribuir o aceno, sem esboçar um sorriso. Perdoe-me, mas não são horas para ser simpática, concluo, tentando livrar-me da culpa de parecer arrogante.

Minha boca seca prende os dentes dentre os lábios rachados. Enfio a mão na bolsa, encontro três tipos de hidratantes labiais. Por mais que eu tente me controlar, não consigo evitar o excesso de preocupação com produtos farmacêuticos e dermatológicos. Vou testando um a um, para ver qual deles surte um efeito imediato e me permite abrir a boca e gritar tudo o que está preso há dias, semanas ou meses. Não faço ideia do tempo, tudo passou rápido, mas cada dia é carregado de horas intermináveis. Percebo que a secura talvez seja sede, nem lembro a última vez que bebi um copo d´água. Porém, agora, surge outra dúvida: qual seria a minha nova estação? Exausta, decido esquecer qualquer tipo de pensamento. Resolvo encostar a cabeça e deixar o próprio trajeto do metrô me acordar em uma hora e, de preferência, em outro local mais apropriado.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Homem das Multidões: o excesso de Margô

Existem os solitários por opção e os por falta de opção. Essa lacuna simbolizada pela palavra falta faz toda a diferença. Há falta no excesso e na necessidade de buscar alguém para se comunicar. O perfil excessivo ou compulsivo não consegue permanecer só por instantes, afastando todos que poderiam um dia se apresentar, tornando-se um solitário por vocação.

Como em todos os seus filmes, o diretor Marcelo Gomes - dessa vez em parceria com Cao Guimarães - toca no ponto mais profundo do ser humano, aquela ferida insistente em sua tarefa de nunca cicatrizar. Assim, a personagem Margô, controladora dos trens de uma estação do metrô, divide-se em olhar para o fluxo do transporte público e para o intenso fluxo de sua tela de celular. Compulsiva, ela necessita das teclas, das mãos ativas, ironicamente lesionadas e protegidas por faixas fisioterapêuticas. A continuidade do filme fez questão de alterar as mãos mobilizadas. A cada plano, a personagem sofria de paralisação forçada em um braço diferente, o que de forma alguma impedia o seu desempenho comunicativo no mundo virtual. Desta forma, em suas telas, Margô camufla o vazio, alimentando peixes imaginários, criando relações inexistentes, escrevendo frases para robôs online full time.

Aquele quadrado, em forma de tela e de vida, torna-se sua realidade em pixels, sem muitas perspectivas ou escapatórias. Ali é tudo descartável: um cardápio de pessoas solitárias, que projetam seus desejos e carências em perfis de redes sociais. Todos esbanjam tempo para preencher o vazio da existência, o que torna insuportável lidar com qualquer pessoa ou situação da esfera real. O silêncio e a paralisia fazem parte dos destinados à solidão. No escuro, na incompreensão, esse alguém só se sustenta a partir do olhar e da resposta de um outro qualquer. Os únicos requisitos para uma pessoa se tornar companhia é ela receber projeções e ser capaz de se tornar um personagem que satisfaça parcialmente as expectativas do outro incansável, por trás das telas, com o braço imobilizado, criando sua vida.

Segundo Margô, basta formatar a máquina que a vida torna-se mais simples. Já o ser humano vem sem prescrição ou manual, sendo uma máquina fadada ao fracasso. Aquela expressão "o fracasso dá caráter" é diluída em uma rede de solitários sedentos em colocar sentido em sua tela, ou melhor, sua vida. Com o cardápio online de perfis, contatos evasivos, alguns pertinentes para os momentos - cada vez mais prolongados - de solidão, quem é que vai se preocupar em se aprofundar em si mesmo? Quem vai abrir mão de aproveitar o sol à beira da piscina para mergulhar em suas contradições e limitações?

Um dos maiores temores do solitário é se identificar na solidão do outro. Incapaz de lidar com seu vazio e incompletude, o ser humano opta por não enxergar a dor de ninguém. Assumir os fracassos seria um preço muito alto para lutar contra a solidão. Assim, com o braço enfaixado, na vida quadrada, repleta de filtros, o ser humano prefere a companhia das máquinas.



Uma observação pertinente (ou não): após a minha sessão, um homem de uns 30 anos pediu ao gerente do cinema a devolução do ingresso argumentando que a qualidade da imagem era muito ruim. "A proposta do filme é essa", explicou o homem. Revoltado, o espectador frustrado disse que não era possível que, em 2014, ainda passassem filme no cinema sem a qualidade full HD.