Não sei bem quando foi, o tempo marcava o compasso do frevo. Perdia-me facilmente na tentativa de acertar o passo, equilibrar a cachaça e buscar os seus olhos na multidão. De longe, ouvi seu sotaque pernambucano e aquilo foi suficiente para me apaixonar. Não deu em outra, você logo sacou que eu era sua. Aí veio o Hino do Elefante de Olinda, com aquele refrão poderoso, e eu chorei. Sabia que meu coração estava entregue. E aí, você sorriu. E mesmo gargalhando, perdido, pro ar, era incapaz de se desequilibrar. Conseguia seguir os passos do frevo, daqueles que só as passistas faziam, dando-me o atestado de pernambucano autêntico. Você se ajoelhava e subia com uma facilidade comovente, que me vidrou. Sim, entre confetes e serpentinas, venho te oferecer com alegria meu amor. Fitando seus olhos, sem vergonha nenhuma, gritando na sua cara que tudo é você na imaginação.
E pronto. Ali tudo ocorreu, tudo para que eu largasse minha vida rumo ao Recife. Apesar de sonhar em morar em Olinda, convenceu-me de que seria melhor nos instalar em Casa Forte, à beira do Rio Capibaribe. Cantando, nêguinho, a língua do frevo, zoando meu sotaque carioca, você me fez renascer nordestina. Assim, do Rio de Janeiro, não sobrou nada. E do nada fez-se tudo.
A sua mania de ouvir discos arranhados na vitrola de seu avô, o jeito que só você sabe declarar amor ao Capiba, os olhos marejados ao me ouvir cantar trêmula "Madeira que cupim não rói". E a paixão ao falar da música de sua terra, que, perdoe-me, virou um pouco minha também, de Chico, Karina, Mombojó, Academia da Berlinda, Siba, Eddie. Os olhos saltam quando você fala suavemente, e eu sinto as águas do Capibaribe entrarem em nossa casa, molhando as plantas. Cada vasinho de uma cor vibrante, como o domingo de carnaval, em que nos conhecemos. E faz tempo, mas foi ontem, e poderia ser amanhã.
O frevo, o mar quente de Boa Viagem, você rindo do meu medo de tubarão. E a gente decorando todas as canções pernambucanas. E o rufar das alfaias dos quatro cantos decorando as paredes da nossa casa. Sem querer, eu puxando o sotaque nordestino numa tentativa de pertencimento a algo que já havia me tomado por inteira. E assim foi, a cada dia, nossa rotina parecia um eterno carnaval. Caminhando no Marco Zero, no carro, no ônibus, era só frevo-canção, daquele que anuncia a saudade. E Capiba virou nosso amor, assim como a Nação Estrela Brilhante, os filmes de nossa cidade, O som ao redor, Era uma vez eu, Verônica, tudo. E tudo de nosso, agora, é nada. Só de lembrar da Bodega de Véio dói tudo, e, pra piorar, não posso mais me apegar a um frevo-canção. A vida é triste e cheia de dissabores, ensinou Capiba. Agora, não tento nem arrumar palavras para tanta distância, tantos quilômetros, tantos sonhos. Não há cachaça que tire meu amargor. Para meu amor, no Recife, haja aperto para estancar o sangue e limpar a ferida. Com atraso, perdi o tempo do maracatu, e a saudade me embaraça até hoje. Mas continuo tentando, sem sucesso, pronunciar a minha dor.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Perda
Chorava feito uma criança recém-desmamada, sem nenhuma estrutura, sem nenhum pudor em exibir-se num buraco sem fundo. As lágrimas pareciam já secas, mas as expressões dramáticas não paravam de evoluir. Quem passava por perto ficava constrangido em interromper aquele encontro solitário e preciso com a tristeza. Porém, o barulho daquele homem entregue ao pranto fez com que uma mulher parasse tudo, numa tentativa de ajudar o desconhecido.
Não fazia ideia de quantos anos aquele garoto ou homem teria. Aquela posição curvada, impotente, transformava-o em um adolescente. No entanto, as marcas e a barba no rosto entregavam uma certa experiência de vida. Por que chorava copiosamente, ali, no meio da rua, na frente de todos? Ele mal conseguia respirar e, menos ainda, pronunciar algumas palavras. Alguém morreu?, perguntou a mulher, com medo de ouvir uma história trágica de quem havia perdido toda a sua família em algum acidente. Nessas horas, só conseguia pensar no pior.
Ele pausou o choro e tomou ar, negando a morte de alguém próximo, mas alegando a sua própria morte. "Ela me deixou. Não tenho como viver sem a única pessoa que fui capaz de amar durante toda a minha vida. Jamais a esquecerei, sinto-me morto. Não aguento mais um dia desta ausência latente". Ouvir aquele apelo gerou um alívio na senhora, que mirabolava doenças incuráveis, tragédias, entre outras coisas que o tempo nem sempre cura. Ao tratar-se de desilusão amorosa, ela reviu um filme de seus 54 anos de amores e desamores entregues ao vento.
Não gostaria de contar suas próprias experiências, pois poderia parecer pedante, comparando as formas como cada um lida com a dor. Assim, em silêncio, resolveu abraçar o homem, com toda a força de quem criara sozinha três filhos para caírem no mundo, e não o largou mais. Foram minutos daquele abraço forte, marcando presença, até que o choro cessou. "Você já foi abandonada?", perguntou o rapaz. Sem incomodar-se com o tom invasivo, a mulher mal teve tempo de refletir quando as palavras interromperam seu lábios fechados: "E como. A vida é abandono, querido. Ou você abandona ou você é abandonado, uma dinâmica cruel e realista. Mas, digo sempre aos meus filhos, aproveite as perdas pronunciáveis. O que mais dói é o que a vida tira e a gente nem sabe colocar nome". Perdas sem nome, desaparecimentos que não são mortes, fugas incompreensíveis e dores na alma. Sim, a vida é capaz de nos tirar coisas ainda mais dolorosas.
Não fazia ideia de quantos anos aquele garoto ou homem teria. Aquela posição curvada, impotente, transformava-o em um adolescente. No entanto, as marcas e a barba no rosto entregavam uma certa experiência de vida. Por que chorava copiosamente, ali, no meio da rua, na frente de todos? Ele mal conseguia respirar e, menos ainda, pronunciar algumas palavras. Alguém morreu?, perguntou a mulher, com medo de ouvir uma história trágica de quem havia perdido toda a sua família em algum acidente. Nessas horas, só conseguia pensar no pior.
Ele pausou o choro e tomou ar, negando a morte de alguém próximo, mas alegando a sua própria morte. "Ela me deixou. Não tenho como viver sem a única pessoa que fui capaz de amar durante toda a minha vida. Jamais a esquecerei, sinto-me morto. Não aguento mais um dia desta ausência latente". Ouvir aquele apelo gerou um alívio na senhora, que mirabolava doenças incuráveis, tragédias, entre outras coisas que o tempo nem sempre cura. Ao tratar-se de desilusão amorosa, ela reviu um filme de seus 54 anos de amores e desamores entregues ao vento.
Não gostaria de contar suas próprias experiências, pois poderia parecer pedante, comparando as formas como cada um lida com a dor. Assim, em silêncio, resolveu abraçar o homem, com toda a força de quem criara sozinha três filhos para caírem no mundo, e não o largou mais. Foram minutos daquele abraço forte, marcando presença, até que o choro cessou. "Você já foi abandonada?", perguntou o rapaz. Sem incomodar-se com o tom invasivo, a mulher mal teve tempo de refletir quando as palavras interromperam seu lábios fechados: "E como. A vida é abandono, querido. Ou você abandona ou você é abandonado, uma dinâmica cruel e realista. Mas, digo sempre aos meus filhos, aproveite as perdas pronunciáveis. O que mais dói é o que a vida tira e a gente nem sabe colocar nome". Perdas sem nome, desaparecimentos que não são mortes, fugas incompreensíveis e dores na alma. Sim, a vida é capaz de nos tirar coisas ainda mais dolorosas.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Algumas doses
Acabou-se com um atraso de anos e incontáveis mágoas presas. Daquelas difíceis de colocar pra fora, nem com uma porrada na cara aquele bolo de sentimentos misturados era capaz de construir-se em uma frase compreensível. Durante o tempo o açúcar cristaliza, já o amargo vira pus, infecção não diagnosticada, escondida embaixo de muitas camadas de pele que camuflam o cheiro podre de palavras não ditas, verbos inexistentes e lençóis amarelados esperando a hora de serem jogados fora.
Não sabe como decidiu que havia se atrasado para ir embora. No entanto, quando foi, pegou tudo que havia construído durante anos e partiu. Tudo se resumia a quase nada. Anos construídos por afetos destruídos em poeira de apartamento miúdo, em obra inacabada que impregna os olhos de cisco, deixando a realidade turva. Colocou o que restou de tanto tempo, o que havia sido salvo pelo mofo e decidiu seguir. Apesar de todas as cores e fotos lembrarem o atraso, estava cansada de ter perdido a hora.
Era a hora de seguir. E resolveu colocar a cabeça para esquecer toda uma vida. E está nessa até hoje. Segue na luta, tirando o pó, contrariando as lembranças, as músicas, as expectativas. Insiste em aprender a ser só e a reaprender a caminhar. Toda vez que acha que se livrou das mágoas, vira algumas doses de cachaça para lembrar que a dor faz parte de si. Na tristeza se reconhece e se abastece. Desce mais uma dose de cachaça para melhor instruir-se na tarefa de viver.
Não sabe como decidiu que havia se atrasado para ir embora. No entanto, quando foi, pegou tudo que havia construído durante anos e partiu. Tudo se resumia a quase nada. Anos construídos por afetos destruídos em poeira de apartamento miúdo, em obra inacabada que impregna os olhos de cisco, deixando a realidade turva. Colocou o que restou de tanto tempo, o que havia sido salvo pelo mofo e decidiu seguir. Apesar de todas as cores e fotos lembrarem o atraso, estava cansada de ter perdido a hora.
Era a hora de seguir. E resolveu colocar a cabeça para esquecer toda uma vida. E está nessa até hoje. Segue na luta, tirando o pó, contrariando as lembranças, as músicas, as expectativas. Insiste em aprender a ser só e a reaprender a caminhar. Toda vez que acha que se livrou das mágoas, vira algumas doses de cachaça para lembrar que a dor faz parte de si. Na tristeza se reconhece e se abastece. Desce mais uma dose de cachaça para melhor instruir-se na tarefa de viver.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Não
Irritavam-me profundamente as palavras descomedidas que saíam de sua boca naturalmente. Nunca era capaz de perceber quando cometia alguma gafe ou excedia-se nas piadas. Aqueles dentes em demasia, o sorriso espontâneo cativando todos ao redor da mesa. Tudo aquilo transformava-me em um bobo observador. Às vezes, perdia-me em seus gestos nada meticulosos, mas com uma elegância de gente que sabe se impor e assume o que quer.
Talvez essa sua vontade expressa em cada parte de seu corpo, em cada pausa da sua voz grave que sabia dizer exatamente o que se passava dentro da cabeça esperta, prendera-me a ti. A sua certeza era a resposta para meu silêncio eterno. Uma mulher que não tem medos de ouvir não, de dizer sim e de parecer inadequada. Aliás, imagino, você nunca deve ter pensado sobre adequação, normas sociais. Enquanto muitos se paralisam diante da dúvida e da insegurança, você simplesmente já escolheu seu caminho. Mesmo sem querer, ainda é capaz de me dar outra lição, ensinando-me que não basta fazer as escolhas, é preciso assumi-las e saber que, muitas vezes, elas serão equivocadas. E aí, você começa a gargalhar contando seus fracassos, suas histórias de amores platônicos - para desespero do meu sentimento de posse-, as situações desagradáveis e as vergonhas que passou. Como sempre, transformando-as em ótimas histórias a serem compartilhadas.
Porém, agora, percebo o quanto me incomoda lidar com a sua naturalidade em viver. Quando prefiro recolher-me em cicatrizes, você mergulha antes de saber se o mar será capaz de te abraçar. Observo a sua maneira torta de caminhar pelas ruas, sempre olhando para os dois lados, admirando cada espaço do céu, e se esquecendo de ser cautelosa com os buracos no asfalto. "O máximo que pode acontecer é eu tropeçar", você dizia, com um sorriso no rosto.
Mesmo quando te vejo só, nunca te vi desamparada. Os seus braços são capazes de agarrar o mundo, da mesmo forma que sua voz emana a condição apaixonada de tropeçante pertinaz. Uma mulher que deixa o vestido voar no bueiro, imita o rapaz grosseiro que é obrigada a conviver, entorna a dose de cachaça de uma só vez e sabe reconhecer quando uma relação chega ao fim. Deveria eu ter aprendido a aproveitar o seu tempo de sim para, agora, ser obrigado a entender e a lidar com o seu singelo não. Não expressamente dito, de forma clara, nada sutil, e certeiro em seus passos de negação.
Talvez essa sua vontade expressa em cada parte de seu corpo, em cada pausa da sua voz grave que sabia dizer exatamente o que se passava dentro da cabeça esperta, prendera-me a ti. A sua certeza era a resposta para meu silêncio eterno. Uma mulher que não tem medos de ouvir não, de dizer sim e de parecer inadequada. Aliás, imagino, você nunca deve ter pensado sobre adequação, normas sociais. Enquanto muitos se paralisam diante da dúvida e da insegurança, você simplesmente já escolheu seu caminho. Mesmo sem querer, ainda é capaz de me dar outra lição, ensinando-me que não basta fazer as escolhas, é preciso assumi-las e saber que, muitas vezes, elas serão equivocadas. E aí, você começa a gargalhar contando seus fracassos, suas histórias de amores platônicos - para desespero do meu sentimento de posse-, as situações desagradáveis e as vergonhas que passou. Como sempre, transformando-as em ótimas histórias a serem compartilhadas.
Porém, agora, percebo o quanto me incomoda lidar com a sua naturalidade em viver. Quando prefiro recolher-me em cicatrizes, você mergulha antes de saber se o mar será capaz de te abraçar. Observo a sua maneira torta de caminhar pelas ruas, sempre olhando para os dois lados, admirando cada espaço do céu, e se esquecendo de ser cautelosa com os buracos no asfalto. "O máximo que pode acontecer é eu tropeçar", você dizia, com um sorriso no rosto.
Mesmo quando te vejo só, nunca te vi desamparada. Os seus braços são capazes de agarrar o mundo, da mesmo forma que sua voz emana a condição apaixonada de tropeçante pertinaz. Uma mulher que deixa o vestido voar no bueiro, imita o rapaz grosseiro que é obrigada a conviver, entorna a dose de cachaça de uma só vez e sabe reconhecer quando uma relação chega ao fim. Deveria eu ter aprendido a aproveitar o seu tempo de sim para, agora, ser obrigado a entender e a lidar com o seu singelo não. Não expressamente dito, de forma clara, nada sutil, e certeiro em seus passos de negação.
sábado, 8 de novembro de 2014
Era ela, era eu
Havia chegado antes da chuva, a tempo de me esconder embaixo dos Arcos. Estranho estar ali, sozinho, naquele local onde sempre estava a dois. Contudo, o tempo já havia passado e os meses embolados transformaram-se em quase dois anos de ausência. Não lembrava como era estar só e, ao mesmo tempo, sentia-me absolutamente desamparado ao lado de qualquer pessoa que não fosse ela. Sem perceber, já fazia parte da fila para comprar ingressos para um show nada especial, quando surgiu um amigo atravessando os pensamentos.
Era ela na cabeça e ele ao meu lado. Não sabia se deveria olhar nos olhos do cara, pois encarar dificulta qualquer estratégia de deixar a mente correr solta. Porém, divagar tornara-se um hábito incontrolável e, sim, de fato, deveria forçar-me a prestar a atenção ao papo sobre... perdi o início. Perguntou-me algo, mas agora realmente não sei o que dizer. Peço, por favor, para repetir. Ela já era. Sobraram os Arcos, a fila, a chuva, com a maioria de rostos desconhecidos, e ele, gente boa, perguntando sobre filhos.
Cara, então, poderia ter um molequinho ou uma menina de nove anos, mas na época resolvemos tirar. Porra, quem sabe estaríamos juntos, com o filho. Inconscientemente falava no plural, merda de ato falho. Às vezes, também notava que a conjugação verbal embaralhava-se, passado, presente, futuro, tudo misturado com lamentações. Muito poderia ter ocorrido. Se o tempo tivesse passado de outra forma. Papo brabo esse de filho. Como seria agora ser pai? Era ela a mãe, era eu o pai de ninguém. O amigo, ele, não soube disfarçar o constrangimento quando viu minha cabeça ir ao encontro dela. Talvez vocês ainda possam ter uma cria, disse, claramente em um esforço para me animar. Porém, agora eu já era novamente ela. Era ela a mãe daquele rebento vazio que fecundou em meu peito ao partir.
Era ela na cabeça e ele ao meu lado. Não sabia se deveria olhar nos olhos do cara, pois encarar dificulta qualquer estratégia de deixar a mente correr solta. Porém, divagar tornara-se um hábito incontrolável e, sim, de fato, deveria forçar-me a prestar a atenção ao papo sobre... perdi o início. Perguntou-me algo, mas agora realmente não sei o que dizer. Peço, por favor, para repetir. Ela já era. Sobraram os Arcos, a fila, a chuva, com a maioria de rostos desconhecidos, e ele, gente boa, perguntando sobre filhos.
Cara, então, poderia ter um molequinho ou uma menina de nove anos, mas na época resolvemos tirar. Porra, quem sabe estaríamos juntos, com o filho. Inconscientemente falava no plural, merda de ato falho. Às vezes, também notava que a conjugação verbal embaralhava-se, passado, presente, futuro, tudo misturado com lamentações. Muito poderia ter ocorrido. Se o tempo tivesse passado de outra forma. Papo brabo esse de filho. Como seria agora ser pai? Era ela a mãe, era eu o pai de ninguém. O amigo, ele, não soube disfarçar o constrangimento quando viu minha cabeça ir ao encontro dela. Talvez vocês ainda possam ter uma cria, disse, claramente em um esforço para me animar. Porém, agora eu já era novamente ela. Era ela a mãe daquele rebento vazio que fecundou em meu peito ao partir.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
O gato
O gato
encara
cara a cara
todos os vizinhos do prédio ao lado
e das redondezas
sua dona insiste
em chamá-lo de filho
e de conversar com
aquele ser felino
de temperamento
levemente selvagem
com pitadas de carinho
na região da nuca e do pescoço.
Fecha os olhinhos le chat
escondendo o seu azul
pois
não é afeito a exibições e
as pessoas insistem
em tirar fotos daquela cor tão
profunda que existe apenas
nos olhos do gato, que
dorme escondido
debaixo da cômoda
dentro de uma cestinha
que deveria servir pão
aos convidados,
mas foi utilizada como cama
pelo pequeno conquistador.
(texto de 13 de janeiro de 2014)
encara
cara a cara
todos os vizinhos do prédio ao lado
e das redondezas
sua dona insiste
em chamá-lo de filho
e de conversar com
aquele ser felino
de temperamento
levemente selvagem
com pitadas de carinho
na região da nuca e do pescoço.
Fecha os olhinhos le chat
escondendo o seu azul
pois
não é afeito a exibições e
as pessoas insistem
em tirar fotos daquela cor tão
profunda que existe apenas
nos olhos do gato, que
dorme escondido
debaixo da cômoda
dentro de uma cestinha
que deveria servir pão
aos convidados,
mas foi utilizada como cama
pelo pequeno conquistador.
(texto de 13 de janeiro de 2014)
terça-feira, 28 de outubro de 2014
O perdão que não veio
Doce ilusão esperar sua ligação, ouvir a voz doce, a gargalhada cotidiana, como se nada tivesse ocorrido. Por mais que eu tivesse tentado tirar de você o seu filho, bem mais precioso, além de ter sido agressivo, perdido a noção do limite, tentando te controlar, aparecendo na portaria do seu prédio, em busca de alguma prova de que você não merece mais meu respeito, nem minha expectativa, eu esperava um telefonema.
Apesar de eu não ter encontrado nenhum rastro de traição, nenhuma palavra de ódio ou jura de inimizade, sofro, talvez de forma mais intensa, pela indiferença. Você sumiu do meu Rio de Janeiro. Por onde andas? Empenho-me atrás de vestígios, fotos, marcas de seu perfume, da sua risada escandalosa, no entanto, você tornou-se um vulto. Poucos conhecidos a veem por aí e, admito, é duro saber que você continua por aí, disponível para a vida. Eu gostaria de te prender, mas não posso. Não sou capaz de dividir, valorizar, abrir mão, da mesma forma que confessar que desejo-te presa, imobilizada, é ardiloso. Sinto-te livre e ameaçadora, capaz de gritar, de dizer-me verdades dolorosas, de ressurgir da escuridão refeita, com a pele irretocável e o sorriso de sempre. Você sabe se resguardar, enquanto perco-me nas noites em claro.
Tudo ao meu redor continua o mesmo: vou aos mesmos lugares, encho a cara em busca de uma inspiração que não chega, trabalho no mesmo local e continuo, como você sempre disse, fingindo que estudo. Eu vou às aulas, mas acho aquilo extremamente desagradável. Ao chegar em casa, só tenho tempo de abrir uma cerveja ou um vinho daqueles que você escolheu durante uma de nossas viagens. Além disso, talvez tarde demais, devo reconhecer: a casa não é minha apenas. Cada canto tem sua cara: as cores, os objetos, os quadros na parede, as prateleiras de livros e dvds. Tudo tão seu que chega a ser difícil encarar. Entretanto, há meses encaro. Já me acostumei a conviver com seu gosto, seu ambiente, como se fosse só meu. Suas coisas ainda estão na estante como se fossem minhas. Eu não te devolvo. Sinto a falta até mesmo das caixas transparentes onde você organizava seus brincos e pulseiras. E aquela luminária de forma de lâmpada, tão inútil, onde está? Os seus imãs de geladeira e cartões postais? Gostaria de me apossar de cada coisa, pois sei que tudo aquilo está impregnado do seu olhar. Perdoe-me, deveria dizer, por estar ocupando o lugar que fora de nós dois. Perdoe-me, já deveria ter dito, por estar vivendo sozinho há tempos, ignorando tudo o que deveria envolver um casal. Perdoe-me, não tenho coragem de dizer na sua cara, por me apropriar do seu bom gosto e de sua casa. Apesar de tudo, agora, desejo que você seja feliz.
Apesar de eu não ter encontrado nenhum rastro de traição, nenhuma palavra de ódio ou jura de inimizade, sofro, talvez de forma mais intensa, pela indiferença. Você sumiu do meu Rio de Janeiro. Por onde andas? Empenho-me atrás de vestígios, fotos, marcas de seu perfume, da sua risada escandalosa, no entanto, você tornou-se um vulto. Poucos conhecidos a veem por aí e, admito, é duro saber que você continua por aí, disponível para a vida. Eu gostaria de te prender, mas não posso. Não sou capaz de dividir, valorizar, abrir mão, da mesma forma que confessar que desejo-te presa, imobilizada, é ardiloso. Sinto-te livre e ameaçadora, capaz de gritar, de dizer-me verdades dolorosas, de ressurgir da escuridão refeita, com a pele irretocável e o sorriso de sempre. Você sabe se resguardar, enquanto perco-me nas noites em claro.
Tudo ao meu redor continua o mesmo: vou aos mesmos lugares, encho a cara em busca de uma inspiração que não chega, trabalho no mesmo local e continuo, como você sempre disse, fingindo que estudo. Eu vou às aulas, mas acho aquilo extremamente desagradável. Ao chegar em casa, só tenho tempo de abrir uma cerveja ou um vinho daqueles que você escolheu durante uma de nossas viagens. Além disso, talvez tarde demais, devo reconhecer: a casa não é minha apenas. Cada canto tem sua cara: as cores, os objetos, os quadros na parede, as prateleiras de livros e dvds. Tudo tão seu que chega a ser difícil encarar. Entretanto, há meses encaro. Já me acostumei a conviver com seu gosto, seu ambiente, como se fosse só meu. Suas coisas ainda estão na estante como se fossem minhas. Eu não te devolvo. Sinto a falta até mesmo das caixas transparentes onde você organizava seus brincos e pulseiras. E aquela luminária de forma de lâmpada, tão inútil, onde está? Os seus imãs de geladeira e cartões postais? Gostaria de me apossar de cada coisa, pois sei que tudo aquilo está impregnado do seu olhar. Perdoe-me, deveria dizer, por estar ocupando o lugar que fora de nós dois. Perdoe-me, já deveria ter dito, por estar vivendo sozinho há tempos, ignorando tudo o que deveria envolver um casal. Perdoe-me, não tenho coragem de dizer na sua cara, por me apropriar do seu bom gosto e de sua casa. Apesar de tudo, agora, desejo que você seja feliz.
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