quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A saudade

De vez em quando aparecem coisas belas no facebook. O jornalista Rodrigo de Almeida postou algo que me comoveu:

A SAUDADE

Saudade é o filho estar a 400km e cinco dias de distância. E só poder tocá-lo por afeto e memória.

A saudade brilha sozinha no começo de todas as ausências.

Leonardo Coimbra: A saudade é o peso do corpo magoando a delicadeza da alma.

Clarice Lispector: Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Eduardo Lourenço: A saudade, a nostalgia ou a melancolia são modulações da nossa relação de seres de memória e sensibilidade com o tempo.

Neruda: Saudade é amar um passado que ainda não passou, / É recusar um presente que nos machuca,/ É não ver o futuro que nos convida...

Guimarães Rosa: Saudade é ser, depois de ter.

Chico Buarque: Saudade é o pior tormento, é pior do que o esquecimento, é pior do que se entrevar.

Fernando Pessoa: Sinto uma saudade imensa de uma futuro melhor.





Como pode essa palavra que existe apenas na nossa língua portuguesa expressar o sentimento de um mundo? A saudade consegue ser a presença e ausência simultaneamente. Existe tanta dificuldade em descrevê-la que ela, simplesmente, não existe nos outros idiomas. É muito além de um "I miss you". Não é falta, é completude de vida. Uma mistura de nostalgia com realização. Tempo que passou, mas permanece eternamente. É o apego à vida, às conquistas, aos nossos amores. A saudade é o toque permanente do passado na porta do presente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Literatura - apenas - para as UPPs: da FLUPP para Cinco vezes Pacificação

O que seria uma Feira Literária Internacional das Unidades de Polícia Pacificadora (FLUPP)? Provavelmente, você recebeu algum e-mail, comentário, matéria ou anúncio desse evento na última semana. No início, sem me tocar sobre o significado da sigla FLUPP, achei interessante a proposta de difundir o hábito literário. Porém, depois de refletir, não encontrei nenhum sentido neste projeto: o que seria uma feira internacional das UPPs?

Como a ideia de promover a literatura pode ser tão restritiva a ponto de escancarar o limite no próprio nome? O livro, como um passaporte para a liberdade, que nos livra das correntes de fronteiras, não deveria ser relacionado com um evento que tem território demarcado. As palavras e autores não podem subir os morros pacificados e deixar os outros "em guerra" abandonados. Pelo visto, a mídia concorda com a proposta da FLUPP, pois fazia tempo que o livro, a matéria-prima tão esquecida, não recebia tanto espaço em jornais impressos e na TV. O evento ganhou espaço em todos os veículos, inclusive, em uma matéria sobre a próxima edição (precoce, não?). Sem dúvida, Ariano Suassuna, Ferreira Gullar e outras atrações merecem todo o espaço na imprensa, porém, não podemos ser ingênuos em acreditar que eles foram os protagonistas desta FLUPP. A polícia pacificadora, que gere esse modelo de paz que não compreendo, é quem fez a festa. As UPPs são um modelo de cidade-maquiagem que a mídia não só compra, como compartilha, curte e vende.

Mesmo para quem acredita que as Unidades de Polícia Pacificadora são capazes de garantir a segurança pública, qual o motivo de um evento literário ser restrito a apenas essas comunidades? As favelas "pacificadas" merecem ter acesso à literatura, assim como todas as outras favelas, ruas, bairros, cidades, estados... Literatura é porta aberta, queda das cercas, muros e limites. Literatura é guerra, é poesia, é amor, é dureza, é viagem. Difícil dizer o que é literatura. Muito mais fácil concluir o que ela - de fato - não representa e nunca representará: uma Unidade de Polícia Pacificadora. O livro não é polícia, ele é uma arma para a transgressão, para a loucura, encontro, desencontros, questionamento. O livro não é unidade, ele é conjunto de palavras, de perdição, de significados, de sentidos, angústias e incompreensões.

Depois de tanto procurar e não encontrar o sentido da FLUPP - aliás que sigla infeliz, assim como a proposta e o nome do evento -, me deparo com a notícia de que vai estrear no cinema o filme "5 vezes pacificação". Juro que demorei para tomar coragem e cuspir as palavras de crítica contra esta Feira Literária... agora, surge outra novidade que me faz tremer nas bases. Bom, posso dizer que, inicialmente, não pretendo assistir ao filme por ele me parecer absolutamente desinteressante e clichê. Porém, mais tarde, tenho certeza que farei questão de assistir e continuar a buscar sentido nesta "pacificação" desordenada. Como já dizia Caetano, "alguma coisa está fora da ordem". Ou esta mania chata de desconfiar e de criticar está ultrapassada ou esse papo de pacificação já está pra lá de Marrakesh.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Moonrise Kingdom

Como a beleza consegue ser essencialmente triste? Em tons pastéis, figurinos impecáveis, maquiagem propositalmente manchada por um azul profundo. Um filme inevitavelmente perfeito. São quadros, enquadramentos, paisagens, ilha, mar, grama. Tudo vibra em um constante tempo, que não passa, que repassa as tradições, que expõe o limite encravado no peito rodeado pelo oceano.

Há um cronômetro que desperta aqueles escoteiros predestinados a conviver com a melancolia da rotina. O dia é limitado por apitos ensurdecedores, já a noite nunca chega: ela habita cada um do universo. A escuridão não consegue se calar diante da beleza da arte, da casa de bonecas, de uma ilha com paisagens fenomenais. Nada, ali, passa de um vício, dos rituais humanos de se restringirem aos seus próprios fantasmas, de se prenderem em suas dificuldades, temendo o novo.

Seria um teatro ou um filme? A dor extrapola o laranja quente das telas. O amarelo apreende o olhar do espectador e prende os jovens Sam e Suzy. A saúde dos personagens é expressa, justamente, na inadequação. A loucura, a impossibilidade de conviver, o desespero pela fuga para uma ilha dali distante. Para que existem os estudos de cartografia se eles são limitados às fronteiras geográficas? A geografia não basta. É preciso construir linhas imaginárias, novas composições, novas cores que manchem aquele tom insistentemente amarelado e empoeirado por tradições perdidas.

A agressividade de Suzy é a barreira para uma sociedade que insiste em se acomodar, esconder suas frustrações para não exibir suas feridas mais profundas. Cada um, ali, se recusa a reconhecer a fragilidade das relações, que sobrevivem graças às instituições falidas, ao estado de alerta que proíbe que a situação fuja ao controle. Porém, nada pode deter a loucura, logo ela, expressa nos dois jovens apaixonados, dispostos a escancarar todos os podres, colocando a faca no peito da hipocrisia de uma sociedade medíocre.

Por ironia, Sam, o jovem sem família, odiado e repudiado por todos que são amarrados em convenções, tem a brilhante ideia de partir para uma nova dimensão, rodeada de mar, de esperança, de crise existencial. Ele não admite o comodismo, ele busca o novo, encara a dor. Consegue, por tabela, reunir toda a agressividade latejante de Suzy e partir sem rumo. O que eles buscam não está no mapa, não está na ilha. Pode ser encontrado após o dilúvio, mas – sem dúvidas -, com muita dificuldade. As barreiras do tempo que levam à vida adulta são amarras de todos. Quem sabe, um dia, o jovem casal consiga, em seu crescimento individual, se desfazer de tudo aquilo que os cerca e se perder no mar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Os intocáveis - Viva Driss!

Se eu pudesse escolher uma coisa para fazer nas horas vagas, apontaria sem titubear: ir ao cinema. Sou simplesmente fascinada pela sala escura, meu quintal de casa, onde aposento a vaidade, ignoro conhecidos, esqueço a maquiagem e, às vezes, assumo a carioquice com minhas havaianas.

Não tenho regras para ir ao cinema, vou sempre que me der na telha, uma, duas, três vezes por semana. Às vezes, não gosto de ler nada sobre o filme para evitar ser contaminada pelo olhar crítico dos outros. Frequentemente, chego a conclusão que sou fã do cinema francês. Sem parecer pedante, conhecedora, cinéfila, mas praticamente todos os últimos bons filmes que assisti vieram da França. Assim, acabo sendo convencida logo que estreia um filme daquela terra.

Entretanto, não costumo gostar do gênero "comédia". Tenho o receio de me deparar com um humor pastelão. "Os intocáveis" era descrito como comédia, o que já ganhara minha desconfiança. Porém, não tinha lido mais nada a respeito. Caí, no domingo à noite, na sala de cinema de paraquedas. Era o horário possível, próximo a minha casa, em um domingo entediante e abafado. Pronto, ali iria passar minha hora vaga.

Para me animar antes da sessão, minha irmã chegou a dizer que o tema me interessaria, pois tratava do problema social vivido por Driss, um imigrante vindo do Senegal, ex-presidiário, e morador do banlieue parisiense. Dramática assumida, imaginei uma espécie de "As neves de Kilimanjaro" 2, e adorei a ideia.

Estava completamente errada na minha previsão, comparação absurda. "Os intocáveis" não é dramático. É Driss, colorido, simpático, impulsivo, aberto, politicamente incorreto, pragmático e, no tempo que sobra, sensível. A comédia não é forçada: nada de piadas prontas, diálogos manjados e, ao mesmo tempo, nada de extraordinário: um roteiro simples, com poucos personagens, mas todos grandiosos. A tela é toda do Driss, o senegalês, francês, metido a moralista, com princípios, humor sedutor, sorriso esplendoroso. Eu, que costumo estudar e ver o tema de imigração com uma carga pesada, me surpreendi ainda mais com esse personagem. Ele não representa as dificuldades dos imigrantes na Europa, ele não transparece os problemas e angústias dos seres humanos no mundo: ele é a solução para tanto drama. A partir de agora, virei fã assumida de comédias.

domingo, 21 de outubro de 2012

Sonhando em polonês

Nem em sonho
imaginava visitar
a Polônia

Mas na madrugada
de domingo
estava eu achada
nas Montanhas Tatra.
Sabia muito mais
sobre a terra
do que imaginava
antes se restringir
ao Pacto de Varsóvia

Acordava para o mundo
dos polacos.
Ali, estava em casa,
no país gélido em meados
do inverno fevereiro.

A minha cama
não existia,
falava uma língua
que nunca tinha ouvido.
Tentava a sorte com o inglês,
pois ninguém do outro lado
do quarto, em plena noite sombria,
além de mim,
se comunicava em polonês.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Uma reflexão pelo fim do trote


É impossível participar de todas as lutas e defender todas bandeiras que gostaria. Também sou incapaz de brigar pela transformação de tantos atos e hábitos perversos da humanidade... aliás, são tantos estes, que, muitos acabam passando por despercebido. Porém, um veio à tona hoje de manhã: deparei-me com um desabafo de um grande mestre sobre o hábito do trote estudantil. Este professor, que marcou minha vida acadêmica, questionava o fato de ver os "calouros" nas ruas pedindo dinheiro, chamando a atenção para os "dias difíceis". Fui pesquisar e encontrei a seguinte descrição: "trote" possui correspondentes em vários idiomas, como trote (espanhol), trotto(italiano), trot (francês), trot (inglês) e trotten (alemão). Em todos estes idiomas, o termo se refere a uma certa forma de se movimentar dos cavalos, uma andadura que se situa entre o passo e o galope. Todavia, deve ser lembrado que o trote não é uma andadura normal e habitual do cavalo, mas algo que deve ser ensinado a ele (muitas vezes à base de chicotadas e esporadas)

Neste momento, refleti sobre o quanto essa tradição de ingresso na vida universitária pode ser perversa para os jovens e adultos. Passei por três graduações em diferentes universidades, assim, presenciei - também - três semanas de calouro. Em todas as faculdades - UERJ, PUC-Rio e UFRJ - fui testemunha das semanas de "calouro". Lembro que a primeira vez que pisei em uma sala de aula, na UERJ, já temia o tão falado trote, pois amigos e familiares já haviam me prevenido sobre as brincadeiras, competições etc. Eu, tímida, como era, cheguei atrasada propositalmente para ver se conseguia fugir desta prova de fogo, mas, assim que fui reconhecida como novata na área, fui eleita a "caloura patricinha" e tive que fazer uma declaração de amor a um veterano, além de pressionada a beijá-lo (claro que me recusei!). Aquilo foi tão constrangedor, que, simplesmente, resolvi apagar da minha memória por um tempo. No entanto, hoje, essa indignação que senti no primeiro dia do curso de Ciências Sociais voltou com toda a força. Os gritos dos “poderosos veteranos” de beija-beija e as gargalhadas de todos ao redor encheram o meu coração de revolta. No período, a timidez me impediu de expor essa história, mas hoje faço um apelo para que as pessoas reflitam sobre o sentido do trote.

Muitos já tentaram me convencer que é uma brincadeira, que ninguém é obrigado a participar, que serve apenas como social, que “os melhores amigos da faculdade são conhecidos no trote”... Enfim, nenhum destes argumentos conseguiu me convencer. Na PUC-Rio, no ano que entrei, o trote não foi tão “pesado”, pois o reitor havia proibido o hábito depois de um aluno passar mal durante a “semana da calourada” do curso de Engenharia. Mesmo assim, lembro de ter presenciado a cena de uma veterana jogando tinta no “cofrinho” de uma caloura desatenta.

Seis anos depois, na última (espero eu!) graduação, de Direito na UFRJ, simplesmente não apareci na primeira semana de aula. Imaginei que os dias de trote seriam os mesmos que já conhecia. As brincadeiras de “choquete”, de expor a lingerie por cima da roupa, colocar a camisinha em uma banana, além dos “tradicionais” banhos de tinta e pedido de dinheiro na rua – de fato – permanecem como tradição no trote. Os colegas de classe relataram as histórias, muitos achando graça, outros com constrangimento. Uma das meninas, por ser considerada bonita pela veterana, foi perseguida e apelidada de forma machista.

O tempo passou, o local de estudo mudou, o curso é outro, mas o mau-gosto e desrespeito com os estudantes continuam. O pior de tudo: a prática é propagada pelas próprias vítimas das brincadeiras. A mesma pessoa que, um dia, é levada em coma alcoólico para o hospital após as provas, está, no período seguinte, comandando a comissão de trote. Os outros incomodados, como eu, acabam se calando. Assim, depois de anos de silêncio sobre o assunto, e, alguma experiência nas costas, peço a todos uma reflexão sobre este ritual de inserção no meio acadêmico. Será que não existe outra forma de se integrar na universidade? O que seria essa “social”, onde uns são considerados melhores e piores do que os outros, a humilhação é regra, assim como a banalização da sexualidade e o desrespeito com as mulheres? Quem não aceita o rótulo de calouro é taxado como antissocial e arrogante porque não está disposto a obedecer às ordens de outro estudante que está com a “pulseira” de organização do trote e ainda é ameaçado a “ser marcado na faculdade” e ser proibido de ir em todas as chopadas. Para mim, seria um alívio não ser nem convidada para este tipo de evento, mas isso não acontece com todos. Acredito – muito – que os cientistas sociais, os jornalistas e advogados, assim como os demais profissionais, são capazes de criar formas mais interessantes de celebração da entrada no mundo universitário. Também tenho certeza que deixar de ser pintado de tinta e evitar a exposição ao ridículo irá fazer bem para todos. As amizades, também, não sentirão falta deste ritual um tanto tirânico. Está mais do que na hora de abandonarmos esta tradição vexatória.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Campo de Santana

Era um campo bem verde, com aquela grama molhada de amarelo nas pontas. Uma grama que fazia nossa perna coçar ao se deparar com a mais pura forma de natureza. Era um parque esquecido no meio de uma grande cidade. Quando foi lembrado, ele estava ali, belo como sempre, com seu excesso de mata, de tranquilidade e de sobrevoos de pássaros, além de sua mistura de bichos, como cotias, pavões, gatos e cachorros.

Nos dias de semana, o parque era habitado por moradores de ruas e meninos viciados em drogas. Quem passava por ali tinha muita pressa: segurava seus pertences com toda força do mundo, caminhava em passos rígidos para atravessar o abandonado Campo de Santana.

No entanto, no sábado, foi possível presenciar uma cena diferente. Muitas cangas, toalhas e papéis improvisados serviam de repouso aos diferentes tipos de pessoas que buscavam seu lugar na sombra para assistir ao belo espetáculo da Intrépida Trupe. As crianças se debruçavam no cenário, que mais parecia uma instalação infantil em perfeita harmonia com aquele espaçoso gramado. Os artistas se sobressaiam, em tons laranjas, rosas e amarelos, com suas piruetas, danças, coreografias e expressões.

A beleza do Campo esquecido era completa com a arte em suas diversas expressões. Tudo ali era vibrante. O canto dos pássaros lutava com a trilha sonora do espetáculo, em um maravilhoso combate. Os artistas habitavam uma casa com muitas armadilhas: passavam por camas no teto, ferros, se equilibravam no cenário, onde o chão era a grama, a vida em forma de verde. Ali, no escondido Campo de Santana, a arte e a vida se instalaram e provaram que o abandono, o esquecimento e a violência não vão superar a naturalidade das coisas: aquele gramado não é palco de medo, ele é, sim, um habitat natural das crianças, da dança, da família, dos pássaros, da acrobacia, dos artistas, das cotias e, é claro, da vida.