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terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Le prénom / Qual é o nome do bebê?
Uma comédia sobre os laços familiares cai muito bem, ainda mais quando o filme explora os momentos mais simples das relações, como um encontro casual, e o desnuda em complexas camadas, sem perder a leveza - jamais!
A interação humana, os relacionamentos, até mesmo entre os mais próximos, estão sempre fadados ao fracasso. Não ao fracasso eterno, mas, sim, aos conflitos diários, às contradições, aos desgastes. Cada um tem o poder de interpretar a voz do outro da maneira que bem entender, a partir de suas singularidades. Assim, qualquer palavra, frase, brincadeira pode soar muito mal ao ouvido de alguns.
Desta maneira, uma simples piada sobre o nome do filho e o encontro para anunciar essa escolha acaba abrindo as cortinas para a desordem que há em toda a família, porém, que é - quase sempre - deixada de lado, tornando-se obscura. Um filme despretensioso, que se passa entre as paredes de um apartamento familiar explora o interior de cada um de nós.
É impossível não nos identificar com as dificuldades, incompreensões e falta de diálogo das relações entre os personagens. O ambiente familiar acentua - através da proximidade dos laços sanguíneos e uma certa intimidade entre os membros da linhagem - os defeitos dos homens. Na intimidade somos tão dramáticos, fechados em nosso próprio mundo, que mal conseguimos enxergar nossos irmãos. Assim, através do excesso, da discussão, do descontrole e do drama, "Le prénom" escancara a comédia da convivência humana. Afinal, problemas e diferenças todos nós temos, basta procurar a melhor forma de encarar as disparidades: o filme sugere de forma interessante o riso como saída.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Duas visões sobre o Ocidente: Argo e Rota Irlandesa
A experiência de olhar para nós mesmos e tentar se distanciar do óbvio, dos hábitos viciados e abrir espaço para uma reflexão crítica é algo extremamente difícil. Ainda mais se tratarmos de assuntos polêmicos, como religião, guerra e diferenças culturais marcantes. No entanto, em cartaz nos cinemas, estão dois filmes que possibilitam duas visões distintas das práticas ocidentais em oposição à cultura oriental.
Ao assistir "Argo", de Ben Affleck, o espectador não consegue tirar os olhos das cenas impactantes, com uma reprodução incrível da realidade dos reféns americanos durante a revolução islâmica de Khomeini, em 1979, no Irã. O filme é daqueles de tirar o fôlego, não há tempo de refletir na sala escura, apenas de se angustiar com a situação dos diplomatas estadunidenses que vivem meses em sigilo na casa do embaixador canadense, enquanto toda cidade de Teerã está em ebulição. A operação Argo, que torna-se pública mais tarde, realizada pela CIA, conseguiu resgatar os reféns americanos do Irã em um período que o país disseminava o ódio contra os Estados Unidos, depois da queda do Reinado Xá, que contava com o apoio americano. Com a Revolução Iraniana, de 1979, o modelo autocrático foi derrubado e o xá recebeu asilo político nos Estados Unidos, presidido por Jimmy Carter, o que gerou uma revolta da população do Irã. Durante a ditadura do xá Mohammad Reza Pahveli, por sua vez, o Irã viveu anos de forte repressão, disseminação da polícia secreta, corrupção e ocidentalização.
Assim, neste contexto em que os iranianos pregavam o antiamericanismo e anti-ocidentalização do país, ocorre a operação Argo. O filme, inicialmente, retoma os anos anteriores à Revolução Iraniana e, de fato, comprova que o regime do xá teve apoio norte-americano. No entanto, no decorrer, os traços orientais são sempre vinculados às práticas violentas e intolerantes, enquanto os americanos são colocados no papel de vítimas de uma sociedade "selvagem", em que não há diálogo e compreensão da diferença. Desta forma, "Argo", apesar de ser perfeito cinematograficamente, é extremamente parcial e superficial na busca da compreensão do embate entre o ocidente e o oriente. O filme não propõe uma reflexão, ele apenas impõe ao espectador que torça para os diplomatas estadunidenses retomarem com vida ao país ocidental, enquanto no Irã ocorrem enforcamentos, grupos armados pelas ruas, fanatismo religioso e perseguição contra os que infringem às leis do Islã. Quem assistir ao filme na expectativa de uma nova oportunidade de conhecer o Irã vai encontrar a mesma lente batida em reportagens de TV, jornais, ou seja, mais uma visão clichê do país.
Do Irã para o Iraque, em contexto muito distinto, "Rota Irlandesa", de Ken Loach, abre espaço para uma reflexão sobre a Guerra do Iraque. O tema é tão atual que não é possível dizer com clareza se o conflito já teve um ponto final. Assim como as dúvidas que existem acerca do início e fim da batalha comandada por George W. Bush, o filme apresenta as incertezas e conflitos internos dos soldados ingleses que foram para a guerra atraídos pelo bom salário em um contexto da crise europeia.
Desta forma, "Rota Irlandesa" já humaniza os soldados de guerra. Aqueles que têm função de combater, atirar, são extremamente humanos, vivem a crise em seu país, o desemprego, além de apresentarem dificuldades em lidar com as atrocidades da guerra. Para complicar ainda mais a situação, um dos amigos, Frankie, morre em situação não esclarecida, o que leva o protagonista Fergus a investigar a morte do companheiro. Para isso, Ken Loach vai fundo nas contradições humanas, em que o poder, as diferenças culturais, a luta por dinheiro, prestígio, a dor e os instintos mais primitivos se misturam em um ambiente hostil, embalado por uma batalha questionável e cruel. Além disso, o filme utiliza imagens reais e documentais do conflito iraniano.
A perversidade da guerra é refletida com o pano de fundo de uma das estradas mais perigosas de Bagdá. Porém, quem assistir ao filme "Rota Irlandesa" pode chegar a conclusão de que o risco e a violência não existem apenas no Irã e, sim, são condições sine qua non de todos os humanos.
Ao assistir "Argo", de Ben Affleck, o espectador não consegue tirar os olhos das cenas impactantes, com uma reprodução incrível da realidade dos reféns americanos durante a revolução islâmica de Khomeini, em 1979, no Irã. O filme é daqueles de tirar o fôlego, não há tempo de refletir na sala escura, apenas de se angustiar com a situação dos diplomatas estadunidenses que vivem meses em sigilo na casa do embaixador canadense, enquanto toda cidade de Teerã está em ebulição. A operação Argo, que torna-se pública mais tarde, realizada pela CIA, conseguiu resgatar os reféns americanos do Irã em um período que o país disseminava o ódio contra os Estados Unidos, depois da queda do Reinado Xá, que contava com o apoio americano. Com a Revolução Iraniana, de 1979, o modelo autocrático foi derrubado e o xá recebeu asilo político nos Estados Unidos, presidido por Jimmy Carter, o que gerou uma revolta da população do Irã. Durante a ditadura do xá Mohammad Reza Pahveli, por sua vez, o Irã viveu anos de forte repressão, disseminação da polícia secreta, corrupção e ocidentalização.
Assim, neste contexto em que os iranianos pregavam o antiamericanismo e anti-ocidentalização do país, ocorre a operação Argo. O filme, inicialmente, retoma os anos anteriores à Revolução Iraniana e, de fato, comprova que o regime do xá teve apoio norte-americano. No entanto, no decorrer, os traços orientais são sempre vinculados às práticas violentas e intolerantes, enquanto os americanos são colocados no papel de vítimas de uma sociedade "selvagem", em que não há diálogo e compreensão da diferença. Desta forma, "Argo", apesar de ser perfeito cinematograficamente, é extremamente parcial e superficial na busca da compreensão do embate entre o ocidente e o oriente. O filme não propõe uma reflexão, ele apenas impõe ao espectador que torça para os diplomatas estadunidenses retomarem com vida ao país ocidental, enquanto no Irã ocorrem enforcamentos, grupos armados pelas ruas, fanatismo religioso e perseguição contra os que infringem às leis do Islã. Quem assistir ao filme na expectativa de uma nova oportunidade de conhecer o Irã vai encontrar a mesma lente batida em reportagens de TV, jornais, ou seja, mais uma visão clichê do país.
Do Irã para o Iraque, em contexto muito distinto, "Rota Irlandesa", de Ken Loach, abre espaço para uma reflexão sobre a Guerra do Iraque. O tema é tão atual que não é possível dizer com clareza se o conflito já teve um ponto final. Assim como as dúvidas que existem acerca do início e fim da batalha comandada por George W. Bush, o filme apresenta as incertezas e conflitos internos dos soldados ingleses que foram para a guerra atraídos pelo bom salário em um contexto da crise europeia.
Desta forma, "Rota Irlandesa" já humaniza os soldados de guerra. Aqueles que têm função de combater, atirar, são extremamente humanos, vivem a crise em seu país, o desemprego, além de apresentarem dificuldades em lidar com as atrocidades da guerra. Para complicar ainda mais a situação, um dos amigos, Frankie, morre em situação não esclarecida, o que leva o protagonista Fergus a investigar a morte do companheiro. Para isso, Ken Loach vai fundo nas contradições humanas, em que o poder, as diferenças culturais, a luta por dinheiro, prestígio, a dor e os instintos mais primitivos se misturam em um ambiente hostil, embalado por uma batalha questionável e cruel. Além disso, o filme utiliza imagens reais e documentais do conflito iraniano.
A perversidade da guerra é refletida com o pano de fundo de uma das estradas mais perigosas de Bagdá. Porém, quem assistir ao filme "Rota Irlandesa" pode chegar a conclusão de que o risco e a violência não existem apenas no Irã e, sim, são condições sine qua non de todos os humanos.
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terça-feira, 27 de novembro de 2012
O Palhaço
Nunca gostei de palhaço. Na infância, evitava o circo, pois temia encontrar aquele ser tão obrigado a ser feliz. Aquela felicidade maquiada em forma de batom vermelho, que cobria não só a boca inteira, como quase todo o rosto, me deixava extremamente angustiada. O palhaço, com a obrigação de fazer rir, me assombrava. A tinta branca na cara, o nariz, a roupa, tudo... tão artificial... Porém, sei que nunca havia conseguido ver um palhaço de verdade. Apenas nas telas do cinema tive a oportunidade.
Na sala escura, o palhaço é bem mais verdadeiro e transparente do que no picadeiro. A primeira vez que assisti ao filme de Selton Mello fiquei paralisada. Não sei ao certo o que mexeu aqui dentro, no entanto, reconheci que algo tinha mudado.
Já na segunda vez, percebi que o pânico do palhaço havia se transformado em uma sincera identificação, compreensão e, até mesmo, solidariedade. Como alguém consegue fazer rir quando ninguém o enxerga? Como ser feliz sendo obrigado a abandonar a dualidade da melancolia, da tristeza, da incompreensão? Impossível. Concordo que existem pessoas que nascem predestinadas a atuarem no circo, entretanto, ninguém nasceu para ser palhaço, para viver o dia inteiro sorrindo.
No filme, Benjamin é o palhaço melancólico Pangaré. São dois opostos unidos em um mesmo personagem, ator, diretor. Todos os sonhos de um ser humano estão ali. As cores ficam restritas ao palco, assim como as piadas prontas, o sorriso forçado. Já do outro lado da lona, Benjamin é mais um homem que sonha com uma outra realidade, que encontra a dúvida, a depressão e a tentativa de superar a dor como barreiras para sua vida pessoal e profissional. Os excessos, os dramas do palco transformam-se em uma rotina sem perspectiva e dura.
Benjamin busca ar, sair sem rumo, em busca de um amor improvável, platônico, que encontrou na sua trajetória de artista. Ele vive perseguido pelo desejo de ventilação. Quanto mais ele tenta sabotar essa vontade de mudança, mais ele se paralisa. Assim, o palhaço percebe que precisa assumir sua característica humana e vencer os medos embarcando no seu próprio rumo. Longe dos palcos, ele vai em sua estrada, no interior de Minas, e esquece sua felicidade aprisionada. Ao exibir sua melancolia, ele, finalmente, consegue encontrar os objetos mais importantes de sua história: sua identidade e seu ventila(a)dor.
Na sala escura, o palhaço é bem mais verdadeiro e transparente do que no picadeiro. A primeira vez que assisti ao filme de Selton Mello fiquei paralisada. Não sei ao certo o que mexeu aqui dentro, no entanto, reconheci que algo tinha mudado.
Já na segunda vez, percebi que o pânico do palhaço havia se transformado em uma sincera identificação, compreensão e, até mesmo, solidariedade. Como alguém consegue fazer rir quando ninguém o enxerga? Como ser feliz sendo obrigado a abandonar a dualidade da melancolia, da tristeza, da incompreensão? Impossível. Concordo que existem pessoas que nascem predestinadas a atuarem no circo, entretanto, ninguém nasceu para ser palhaço, para viver o dia inteiro sorrindo.
No filme, Benjamin é o palhaço melancólico Pangaré. São dois opostos unidos em um mesmo personagem, ator, diretor. Todos os sonhos de um ser humano estão ali. As cores ficam restritas ao palco, assim como as piadas prontas, o sorriso forçado. Já do outro lado da lona, Benjamin é mais um homem que sonha com uma outra realidade, que encontra a dúvida, a depressão e a tentativa de superar a dor como barreiras para sua vida pessoal e profissional. Os excessos, os dramas do palco transformam-se em uma rotina sem perspectiva e dura.
Benjamin busca ar, sair sem rumo, em busca de um amor improvável, platônico, que encontrou na sua trajetória de artista. Ele vive perseguido pelo desejo de ventilação. Quanto mais ele tenta sabotar essa vontade de mudança, mais ele se paralisa. Assim, o palhaço percebe que precisa assumir sua característica humana e vencer os medos embarcando no seu próprio rumo. Longe dos palcos, ele vai em sua estrada, no interior de Minas, e esquece sua felicidade aprisionada. Ao exibir sua melancolia, ele, finalmente, consegue encontrar os objetos mais importantes de sua história: sua identidade e seu ventila(a)dor.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Era uma vez eu, Verônica
Toda mulher é Verônica. Não mira, mas acerta no peito. Às vezes, em nosso próprio peito. Despido ou não. Coberto de branco, com jaleco, que esconde o corpo, mas exibe a ternura. O desejo é deixado de lado na hora do expediente de psiquiatra, de filha. Na hora vaga, ele não pede licença e não perde o charme. O desejo em carne, em corpo, com seios à mostra, sem parecer vulgar.
Era uma vez eu, em Recife, Verônica. Cidade de Karina. De cor, de música, de mar, frevo diariamente, antes, durante e depois do carnaval. Na vitrola, de preferência. Na pausa entre a casa e o hospital, todo mundo merece ser Verônica. Ter o direito de duvidar, de escolher e de voltar atrás no seu próprio caminho. Tirar todas as roupas e pedras que nos conduzem a uma direção.
Neste momento de reflexão é possível se deparar com a solidão. Mas, aí, surge o mar, esconderijo para os mais impuros segredos, as ladeiras de Olinda, com seus amores livres, vazios e repletos de paixão. O melhor a se fazer é não parar, seguir adiante, em busca da desconstrução.
Não importa se todos ao redor estão paralisados em seu próprio ritmo contínuo. Cada Verônica reconhece o seu próprio tempo; precisa fazer as escolhas no momento certo. Sem julgar os outros, toda Verônica quer se reconhecer e conhecer a fundo. Rir e sorrir da vida, com uma cerveja na mesa, fugindo do esquema "tá tudo padronizado", com os olhos borrados de purpurina, brilho na pele de sol do nordeste, do mar de Recife, boiando nas águas claras.
Era uma vez uma mulher. Filha, profissional, médica, paciente, amiga, humana. Uma mulher de Recife, que vive espremida entre os prédios, carros e praia. Ela vive a doçura e a sexualidade, ela vibra, respira, nada, goza. Verônica dribla a dor através da compreensão, foge dos julgamentos, olha nos olhos, aguenta um cuspe da sociedade. Sente a dor, não paralisa, cicatriza, segue em frente - firme e forte - no processo de libertação.
http://www.youtube.com/watch?v=CRUDW05w6cY&feature=related
Era uma vez eu, em Recife, Verônica. Cidade de Karina. De cor, de música, de mar, frevo diariamente, antes, durante e depois do carnaval. Na vitrola, de preferência. Na pausa entre a casa e o hospital, todo mundo merece ser Verônica. Ter o direito de duvidar, de escolher e de voltar atrás no seu próprio caminho. Tirar todas as roupas e pedras que nos conduzem a uma direção.
Neste momento de reflexão é possível se deparar com a solidão. Mas, aí, surge o mar, esconderijo para os mais impuros segredos, as ladeiras de Olinda, com seus amores livres, vazios e repletos de paixão. O melhor a se fazer é não parar, seguir adiante, em busca da desconstrução.
Não importa se todos ao redor estão paralisados em seu próprio ritmo contínuo. Cada Verônica reconhece o seu próprio tempo; precisa fazer as escolhas no momento certo. Sem julgar os outros, toda Verônica quer se reconhecer e conhecer a fundo. Rir e sorrir da vida, com uma cerveja na mesa, fugindo do esquema "tá tudo padronizado", com os olhos borrados de purpurina, brilho na pele de sol do nordeste, do mar de Recife, boiando nas águas claras.
Era uma vez uma mulher. Filha, profissional, médica, paciente, amiga, humana. Uma mulher de Recife, que vive espremida entre os prédios, carros e praia. Ela vive a doçura e a sexualidade, ela vibra, respira, nada, goza. Verônica dribla a dor através da compreensão, foge dos julgamentos, olha nos olhos, aguenta um cuspe da sociedade. Sente a dor, não paralisa, cicatriza, segue em frente - firme e forte - no processo de libertação.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Os intocáveis - Viva Driss!
Se eu pudesse escolher uma coisa para fazer nas horas vagas, apontaria sem titubear: ir ao cinema. Sou simplesmente fascinada pela sala escura, meu quintal de casa, onde aposento a vaidade, ignoro conhecidos, esqueço a maquiagem e, às vezes, assumo a carioquice com minhas havaianas.
Não tenho regras para ir ao cinema, vou sempre que me der na telha, uma, duas, três vezes por semana. Às vezes, não gosto de ler nada sobre o filme para evitar ser contaminada pelo olhar crítico dos outros. Frequentemente, chego a conclusão que sou fã do cinema francês. Sem parecer pedante, conhecedora, cinéfila, mas praticamente todos os últimos bons filmes que assisti vieram da França. Assim, acabo sendo convencida logo que estreia um filme daquela terra.
Entretanto, não costumo gostar do gênero "comédia". Tenho o receio de me deparar com um humor pastelão. "Os intocáveis" era descrito como comédia, o que já ganhara minha desconfiança. Porém, não tinha lido mais nada a respeito. Caí, no domingo à noite, na sala de cinema de paraquedas. Era o horário possível, próximo a minha casa, em um domingo entediante e abafado. Pronto, ali iria passar minha hora vaga.
Para me animar antes da sessão, minha irmã chegou a dizer que o tema me interessaria, pois tratava do problema social vivido por Driss, um imigrante vindo do Senegal, ex-presidiário, e morador do banlieue parisiense. Dramática assumida, imaginei uma espécie de "As neves de Kilimanjaro" 2, e adorei a ideia.
Estava completamente errada na minha previsão, comparação absurda. "Os intocáveis" não é dramático. É Driss, colorido, simpático, impulsivo, aberto, politicamente incorreto, pragmático e, no tempo que sobra, sensível. A comédia não é forçada: nada de piadas prontas, diálogos manjados e, ao mesmo tempo, nada de extraordinário: um roteiro simples, com poucos personagens, mas todos grandiosos. A tela é toda do Driss, o senegalês, francês, metido a moralista, com princípios, humor sedutor, sorriso esplendoroso. Eu, que costumo estudar e ver o tema de imigração com uma carga pesada, me surpreendi ainda mais com esse personagem. Ele não representa as dificuldades dos imigrantes na Europa, ele não transparece os problemas e angústias dos seres humanos no mundo: ele é a solução para tanto drama. A partir de agora, virei fã assumida de comédias.
Não tenho regras para ir ao cinema, vou sempre que me der na telha, uma, duas, três vezes por semana. Às vezes, não gosto de ler nada sobre o filme para evitar ser contaminada pelo olhar crítico dos outros. Frequentemente, chego a conclusão que sou fã do cinema francês. Sem parecer pedante, conhecedora, cinéfila, mas praticamente todos os últimos bons filmes que assisti vieram da França. Assim, acabo sendo convencida logo que estreia um filme daquela terra.
Entretanto, não costumo gostar do gênero "comédia". Tenho o receio de me deparar com um humor pastelão. "Os intocáveis" era descrito como comédia, o que já ganhara minha desconfiança. Porém, não tinha lido mais nada a respeito. Caí, no domingo à noite, na sala de cinema de paraquedas. Era o horário possível, próximo a minha casa, em um domingo entediante e abafado. Pronto, ali iria passar minha hora vaga.
Para me animar antes da sessão, minha irmã chegou a dizer que o tema me interessaria, pois tratava do problema social vivido por Driss, um imigrante vindo do Senegal, ex-presidiário, e morador do banlieue parisiense. Dramática assumida, imaginei uma espécie de "As neves de Kilimanjaro" 2, e adorei a ideia.
Estava completamente errada na minha previsão, comparação absurda. "Os intocáveis" não é dramático. É Driss, colorido, simpático, impulsivo, aberto, politicamente incorreto, pragmático e, no tempo que sobra, sensível. A comédia não é forçada: nada de piadas prontas, diálogos manjados e, ao mesmo tempo, nada de extraordinário: um roteiro simples, com poucos personagens, mas todos grandiosos. A tela é toda do Driss, o senegalês, francês, metido a moralista, com princípios, humor sedutor, sorriso esplendoroso. Eu, que costumo estudar e ver o tema de imigração com uma carga pesada, me surpreendi ainda mais com esse personagem. Ele não representa as dificuldades dos imigrantes na Europa, ele não transparece os problemas e angústias dos seres humanos no mundo: ele é a solução para tanto drama. A partir de agora, virei fã assumida de comédias.
quarta-feira, 14 de março de 2012
As mulheres do sexto andar

No sexto andar há cores e flores de todos os tipos, formas, idades. Muitas mulheres, em seus contornos, muita vitalidade. Força, garra... pra encarar a vida sem esquecer a risada de todo dia.Não há espaço para se amargurar com os problemas que as cercam. Todas ficam em pequenos quartos e dividem um banheiro, mas nada as impedem de brindar à vida diariamente.
O encontro da beleza com a vida contrasta com a pouca infraestrutura daquele velho e abandonado sexto andar. A sujeira que poderia repelir transforma-se em união, em luta. Elas limpam as casas, banheiros e quartos da alta sociedade francesa, mas convivem com a desordem da área destinada às domésticas. Entretanto, nada disso as tornam amarguradas ou infelizes.
O salário modesto, que poderia deixar a rotina complexa e difícil, não é impedimento para nada. Todas são pessoas simples e leves ao se olharem no espelho, porém, o reflexo não esconde o drama e intensidade de tudo que elas vivem.
As diferenças e peculiaridades de cada mulher não tornam-se barreiras e, sim, um impulso para a aproximação. Todas têm um lado Maria de ser: mãe, amiga, mulher, trabalhadora e, sempre, sonhadora. Muitos as olham e pensam: "como são corajosas"... Mas eu acredito: corajoso - de fato - é quem sai do sexto andar.
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