Demorei pra ver Elena. Mas logo que vi, me apropriei de cada detalhe do filme. A busca por Elena faz parte de nós. Se ela é assim, como justifica Petra à amiga ao ver a irmã deitada em sua cama, toda a humanidade também é. Na sessão do cinema, cada um reconhece sua própria dor no quarto enclausurado, escuro, com uma fumaça de incerteza que ronda nossas mentes na busca incessante pela felicidade.
Enquanto alguns não se interessam em dançar com a lua, os que desejam se aprofundar na noite são obrigados a lidar com a inevitável solidão. Elena tentou. Fez nascer estrela na escuridão, marcou a vida de muitos, transferiu seu amor pela arte para uma outra geração. Não diria que ela fracassou, mas quem sou eu pra opinar, já que nunca a conheci pessoalmente. Brilhou o quanto pôde, se perdeu inúmeras vezes, enlouqueceu, o que é sinal de sanidade em uma sociedade cada vez mais superficial.
A arte que poderia curar a levou para outra dimensão. Enquanto isso, Elena deixou sua irmã encenando a morte das duas, transformando sua dor em um filme extremamente sensível, delicado e triste. Sim, triste, assim como a humanidade. Pareceu tudo calculado. A atriz já tinha previsto tudo antes de partir, afinal, ela tinha o dom de interpretar. Perfeccionista, nunca iria embora sem planejar o ato final do espetáculo. Ensaiou bastante cada ação. No fim, buscou a lua. Como sempre prevenida, deixou uma estrela que, mesmo no escuro da mágoa, transformou toda nostalgia em uma sublime obra de arte.
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sexta-feira, 31 de maio de 2013
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Le prénom / Qual é o nome do bebê?
Uma comédia sobre os laços familiares cai muito bem, ainda mais quando o filme explora os momentos mais simples das relações, como um encontro casual, e o desnuda em complexas camadas, sem perder a leveza - jamais!
A interação humana, os relacionamentos, até mesmo entre os mais próximos, estão sempre fadados ao fracasso. Não ao fracasso eterno, mas, sim, aos conflitos diários, às contradições, aos desgastes. Cada um tem o poder de interpretar a voz do outro da maneira que bem entender, a partir de suas singularidades. Assim, qualquer palavra, frase, brincadeira pode soar muito mal ao ouvido de alguns.
Desta maneira, uma simples piada sobre o nome do filho e o encontro para anunciar essa escolha acaba abrindo as cortinas para a desordem que há em toda a família, porém, que é - quase sempre - deixada de lado, tornando-se obscura. Um filme despretensioso, que se passa entre as paredes de um apartamento familiar explora o interior de cada um de nós.
É impossível não nos identificar com as dificuldades, incompreensões e falta de diálogo das relações entre os personagens. O ambiente familiar acentua - através da proximidade dos laços sanguíneos e uma certa intimidade entre os membros da linhagem - os defeitos dos homens. Na intimidade somos tão dramáticos, fechados em nosso próprio mundo, que mal conseguimos enxergar nossos irmãos. Assim, através do excesso, da discussão, do descontrole e do drama, "Le prénom" escancara a comédia da convivência humana. Afinal, problemas e diferenças todos nós temos, basta procurar a melhor forma de encarar as disparidades: o filme sugere de forma interessante o riso como saída.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Duas visões sobre o Ocidente: Argo e Rota Irlandesa
A experiência de olhar para nós mesmos e tentar se distanciar do óbvio, dos hábitos viciados e abrir espaço para uma reflexão crítica é algo extremamente difícil. Ainda mais se tratarmos de assuntos polêmicos, como religião, guerra e diferenças culturais marcantes. No entanto, em cartaz nos cinemas, estão dois filmes que possibilitam duas visões distintas das práticas ocidentais em oposição à cultura oriental.
Ao assistir "Argo", de Ben Affleck, o espectador não consegue tirar os olhos das cenas impactantes, com uma reprodução incrível da realidade dos reféns americanos durante a revolução islâmica de Khomeini, em 1979, no Irã. O filme é daqueles de tirar o fôlego, não há tempo de refletir na sala escura, apenas de se angustiar com a situação dos diplomatas estadunidenses que vivem meses em sigilo na casa do embaixador canadense, enquanto toda cidade de Teerã está em ebulição. A operação Argo, que torna-se pública mais tarde, realizada pela CIA, conseguiu resgatar os reféns americanos do Irã em um período que o país disseminava o ódio contra os Estados Unidos, depois da queda do Reinado Xá, que contava com o apoio americano. Com a Revolução Iraniana, de 1979, o modelo autocrático foi derrubado e o xá recebeu asilo político nos Estados Unidos, presidido por Jimmy Carter, o que gerou uma revolta da população do Irã. Durante a ditadura do xá Mohammad Reza Pahveli, por sua vez, o Irã viveu anos de forte repressão, disseminação da polícia secreta, corrupção e ocidentalização.
Assim, neste contexto em que os iranianos pregavam o antiamericanismo e anti-ocidentalização do país, ocorre a operação Argo. O filme, inicialmente, retoma os anos anteriores à Revolução Iraniana e, de fato, comprova que o regime do xá teve apoio norte-americano. No entanto, no decorrer, os traços orientais são sempre vinculados às práticas violentas e intolerantes, enquanto os americanos são colocados no papel de vítimas de uma sociedade "selvagem", em que não há diálogo e compreensão da diferença. Desta forma, "Argo", apesar de ser perfeito cinematograficamente, é extremamente parcial e superficial na busca da compreensão do embate entre o ocidente e o oriente. O filme não propõe uma reflexão, ele apenas impõe ao espectador que torça para os diplomatas estadunidenses retomarem com vida ao país ocidental, enquanto no Irã ocorrem enforcamentos, grupos armados pelas ruas, fanatismo religioso e perseguição contra os que infringem às leis do Islã. Quem assistir ao filme na expectativa de uma nova oportunidade de conhecer o Irã vai encontrar a mesma lente batida em reportagens de TV, jornais, ou seja, mais uma visão clichê do país.
Do Irã para o Iraque, em contexto muito distinto, "Rota Irlandesa", de Ken Loach, abre espaço para uma reflexão sobre a Guerra do Iraque. O tema é tão atual que não é possível dizer com clareza se o conflito já teve um ponto final. Assim como as dúvidas que existem acerca do início e fim da batalha comandada por George W. Bush, o filme apresenta as incertezas e conflitos internos dos soldados ingleses que foram para a guerra atraídos pelo bom salário em um contexto da crise europeia.
Desta forma, "Rota Irlandesa" já humaniza os soldados de guerra. Aqueles que têm função de combater, atirar, são extremamente humanos, vivem a crise em seu país, o desemprego, além de apresentarem dificuldades em lidar com as atrocidades da guerra. Para complicar ainda mais a situação, um dos amigos, Frankie, morre em situação não esclarecida, o que leva o protagonista Fergus a investigar a morte do companheiro. Para isso, Ken Loach vai fundo nas contradições humanas, em que o poder, as diferenças culturais, a luta por dinheiro, prestígio, a dor e os instintos mais primitivos se misturam em um ambiente hostil, embalado por uma batalha questionável e cruel. Além disso, o filme utiliza imagens reais e documentais do conflito iraniano.
A perversidade da guerra é refletida com o pano de fundo de uma das estradas mais perigosas de Bagdá. Porém, quem assistir ao filme "Rota Irlandesa" pode chegar a conclusão de que o risco e a violência não existem apenas no Irã e, sim, são condições sine qua non de todos os humanos.
Ao assistir "Argo", de Ben Affleck, o espectador não consegue tirar os olhos das cenas impactantes, com uma reprodução incrível da realidade dos reféns americanos durante a revolução islâmica de Khomeini, em 1979, no Irã. O filme é daqueles de tirar o fôlego, não há tempo de refletir na sala escura, apenas de se angustiar com a situação dos diplomatas estadunidenses que vivem meses em sigilo na casa do embaixador canadense, enquanto toda cidade de Teerã está em ebulição. A operação Argo, que torna-se pública mais tarde, realizada pela CIA, conseguiu resgatar os reféns americanos do Irã em um período que o país disseminava o ódio contra os Estados Unidos, depois da queda do Reinado Xá, que contava com o apoio americano. Com a Revolução Iraniana, de 1979, o modelo autocrático foi derrubado e o xá recebeu asilo político nos Estados Unidos, presidido por Jimmy Carter, o que gerou uma revolta da população do Irã. Durante a ditadura do xá Mohammad Reza Pahveli, por sua vez, o Irã viveu anos de forte repressão, disseminação da polícia secreta, corrupção e ocidentalização.
Assim, neste contexto em que os iranianos pregavam o antiamericanismo e anti-ocidentalização do país, ocorre a operação Argo. O filme, inicialmente, retoma os anos anteriores à Revolução Iraniana e, de fato, comprova que o regime do xá teve apoio norte-americano. No entanto, no decorrer, os traços orientais são sempre vinculados às práticas violentas e intolerantes, enquanto os americanos são colocados no papel de vítimas de uma sociedade "selvagem", em que não há diálogo e compreensão da diferença. Desta forma, "Argo", apesar de ser perfeito cinematograficamente, é extremamente parcial e superficial na busca da compreensão do embate entre o ocidente e o oriente. O filme não propõe uma reflexão, ele apenas impõe ao espectador que torça para os diplomatas estadunidenses retomarem com vida ao país ocidental, enquanto no Irã ocorrem enforcamentos, grupos armados pelas ruas, fanatismo religioso e perseguição contra os que infringem às leis do Islã. Quem assistir ao filme na expectativa de uma nova oportunidade de conhecer o Irã vai encontrar a mesma lente batida em reportagens de TV, jornais, ou seja, mais uma visão clichê do país.
Do Irã para o Iraque, em contexto muito distinto, "Rota Irlandesa", de Ken Loach, abre espaço para uma reflexão sobre a Guerra do Iraque. O tema é tão atual que não é possível dizer com clareza se o conflito já teve um ponto final. Assim como as dúvidas que existem acerca do início e fim da batalha comandada por George W. Bush, o filme apresenta as incertezas e conflitos internos dos soldados ingleses que foram para a guerra atraídos pelo bom salário em um contexto da crise europeia.
Desta forma, "Rota Irlandesa" já humaniza os soldados de guerra. Aqueles que têm função de combater, atirar, são extremamente humanos, vivem a crise em seu país, o desemprego, além de apresentarem dificuldades em lidar com as atrocidades da guerra. Para complicar ainda mais a situação, um dos amigos, Frankie, morre em situação não esclarecida, o que leva o protagonista Fergus a investigar a morte do companheiro. Para isso, Ken Loach vai fundo nas contradições humanas, em que o poder, as diferenças culturais, a luta por dinheiro, prestígio, a dor e os instintos mais primitivos se misturam em um ambiente hostil, embalado por uma batalha questionável e cruel. Além disso, o filme utiliza imagens reais e documentais do conflito iraniano.
A perversidade da guerra é refletida com o pano de fundo de uma das estradas mais perigosas de Bagdá. Porém, quem assistir ao filme "Rota Irlandesa" pode chegar a conclusão de que o risco e a violência não existem apenas no Irã e, sim, são condições sine qua non de todos os humanos.
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terça-feira, 27 de novembro de 2012
O Palhaço
Nunca gostei de palhaço. Na infância, evitava o circo, pois temia encontrar aquele ser tão obrigado a ser feliz. Aquela felicidade maquiada em forma de batom vermelho, que cobria não só a boca inteira, como quase todo o rosto, me deixava extremamente angustiada. O palhaço, com a obrigação de fazer rir, me assombrava. A tinta branca na cara, o nariz, a roupa, tudo... tão artificial... Porém, sei que nunca havia conseguido ver um palhaço de verdade. Apenas nas telas do cinema tive a oportunidade.
Na sala escura, o palhaço é bem mais verdadeiro e transparente do que no picadeiro. A primeira vez que assisti ao filme de Selton Mello fiquei paralisada. Não sei ao certo o que mexeu aqui dentro, no entanto, reconheci que algo tinha mudado.
Já na segunda vez, percebi que o pânico do palhaço havia se transformado em uma sincera identificação, compreensão e, até mesmo, solidariedade. Como alguém consegue fazer rir quando ninguém o enxerga? Como ser feliz sendo obrigado a abandonar a dualidade da melancolia, da tristeza, da incompreensão? Impossível. Concordo que existem pessoas que nascem predestinadas a atuarem no circo, entretanto, ninguém nasceu para ser palhaço, para viver o dia inteiro sorrindo.
No filme, Benjamin é o palhaço melancólico Pangaré. São dois opostos unidos em um mesmo personagem, ator, diretor. Todos os sonhos de um ser humano estão ali. As cores ficam restritas ao palco, assim como as piadas prontas, o sorriso forçado. Já do outro lado da lona, Benjamin é mais um homem que sonha com uma outra realidade, que encontra a dúvida, a depressão e a tentativa de superar a dor como barreiras para sua vida pessoal e profissional. Os excessos, os dramas do palco transformam-se em uma rotina sem perspectiva e dura.
Benjamin busca ar, sair sem rumo, em busca de um amor improvável, platônico, que encontrou na sua trajetória de artista. Ele vive perseguido pelo desejo de ventilação. Quanto mais ele tenta sabotar essa vontade de mudança, mais ele se paralisa. Assim, o palhaço percebe que precisa assumir sua característica humana e vencer os medos embarcando no seu próprio rumo. Longe dos palcos, ele vai em sua estrada, no interior de Minas, e esquece sua felicidade aprisionada. Ao exibir sua melancolia, ele, finalmente, consegue encontrar os objetos mais importantes de sua história: sua identidade e seu ventila(a)dor.
Na sala escura, o palhaço é bem mais verdadeiro e transparente do que no picadeiro. A primeira vez que assisti ao filme de Selton Mello fiquei paralisada. Não sei ao certo o que mexeu aqui dentro, no entanto, reconheci que algo tinha mudado.
Já na segunda vez, percebi que o pânico do palhaço havia se transformado em uma sincera identificação, compreensão e, até mesmo, solidariedade. Como alguém consegue fazer rir quando ninguém o enxerga? Como ser feliz sendo obrigado a abandonar a dualidade da melancolia, da tristeza, da incompreensão? Impossível. Concordo que existem pessoas que nascem predestinadas a atuarem no circo, entretanto, ninguém nasceu para ser palhaço, para viver o dia inteiro sorrindo.
No filme, Benjamin é o palhaço melancólico Pangaré. São dois opostos unidos em um mesmo personagem, ator, diretor. Todos os sonhos de um ser humano estão ali. As cores ficam restritas ao palco, assim como as piadas prontas, o sorriso forçado. Já do outro lado da lona, Benjamin é mais um homem que sonha com uma outra realidade, que encontra a dúvida, a depressão e a tentativa de superar a dor como barreiras para sua vida pessoal e profissional. Os excessos, os dramas do palco transformam-se em uma rotina sem perspectiva e dura.
Benjamin busca ar, sair sem rumo, em busca de um amor improvável, platônico, que encontrou na sua trajetória de artista. Ele vive perseguido pelo desejo de ventilação. Quanto mais ele tenta sabotar essa vontade de mudança, mais ele se paralisa. Assim, o palhaço percebe que precisa assumir sua característica humana e vencer os medos embarcando no seu próprio rumo. Longe dos palcos, ele vai em sua estrada, no interior de Minas, e esquece sua felicidade aprisionada. Ao exibir sua melancolia, ele, finalmente, consegue encontrar os objetos mais importantes de sua história: sua identidade e seu ventila(a)dor.
domingo, 25 de março de 2012
Pina 3D

Arte e cidade se complementam
e transbordam sentimentos.
Quando falta palavra,
há dança e
expressão dramática.
Quando tudo parece perdido,
a procura permanece.
Não importa o rumo,
e, sim, a necessidade
de busca e de construção.
Nada é certo ou errado,
tudo é loucura à flor da pele.
Excessos de drama e de leveza.
Peles que exalam
os mais intensos cheiros.
Corpos que se deparam
com grandes abismos.
Terra, água, pedra...
Todos os elementos reunidos.
O ser humano precisa superá-los,
atravessar as armadilhas,
os perigos, os desastres,
o labirinto das próprias mentes,
a timidez que insiste em permanecer.
Só na superação e na eterna busca
encontra-se o caminho da dança.
Neste ponto, enfim, nos deparamos com a vida.
sábado, 24 de março de 2012
Habemus Papam

A multidão precisa de alguém para confiar. Por não saberem o caminho a seguir, todos preferem depositar a sua insegurança em um líder que transmita força e estabilidade, que transforme as dúvidas em certeza, a ausência de convicção em fé.
Entretanto, quem há de querer assumir toda essa responsabilidade? Existe alguém que possa servir de guia para uma massa desacreditada e incorporar a figura de santidade mais próxima de Deus? Não há candidatos para esta dura tarefa, assim, cabe aos cardeais a escolha do próximo papa.
Esta votação, por mais justa que possa ser, transforma-se em uma cruel imposição ao eleito. Ele não tem chance de se esquivar, de escancarar seus medos, seus sonhos e, o pior, deve camuflar todas as suas inseguranças, para poder, desta forma, acalentar a multidão que o espera, como um rebanho de ovelhas que depende do seu pastor para sair do lugar.
Nesta obrigação de ser líder, ele se desespera. Percebe o quanto se aprisionou em sua própria vida. O quanto a presença de Deus e de todos os cardeais o tornava refém da solidão e de um déficit de acolhimento. A massa de pessoas de todas as partes do mundo o deixava transtornado, afinal, nada tinha a dizer a eles, a não ser que pudesse se abrir e expurgar todos os medos.
Deus havia determinado que ele deveria ser o próximo papa, porém, sua intenção não era essa. Ele queria estar nos palcos, em uma peça de teatro, longe dos fiéis e de toda a vestimenta, que mais parecia um peso. Mesmo correndo o risco de não ser perdoado pela divindade e pelos colegas, ele resolveu seguir o seu desejo - sempre reprimido - pela primeira vez na vida: virou as costas para a multidão, deu adeus ao Vaticano e se libertou das correntes. Concluiu que não nasceu para liderar e, sim, para seguir suas próprias vontades.
quarta-feira, 14 de março de 2012
As mulheres do sexto andar

No sexto andar há cores e flores de todos os tipos, formas, idades. Muitas mulheres, em seus contornos, muita vitalidade. Força, garra... pra encarar a vida sem esquecer a risada de todo dia.Não há espaço para se amargurar com os problemas que as cercam. Todas ficam em pequenos quartos e dividem um banheiro, mas nada as impedem de brindar à vida diariamente.
O encontro da beleza com a vida contrasta com a pouca infraestrutura daquele velho e abandonado sexto andar. A sujeira que poderia repelir transforma-se em união, em luta. Elas limpam as casas, banheiros e quartos da alta sociedade francesa, mas convivem com a desordem da área destinada às domésticas. Entretanto, nada disso as tornam amarguradas ou infelizes.
O salário modesto, que poderia deixar a rotina complexa e difícil, não é impedimento para nada. Todas são pessoas simples e leves ao se olharem no espelho, porém, o reflexo não esconde o drama e intensidade de tudo que elas vivem.
As diferenças e peculiaridades de cada mulher não tornam-se barreiras e, sim, um impulso para a aproximação. Todas têm um lado Maria de ser: mãe, amiga, mulher, trabalhadora e, sempre, sonhadora. Muitos as olham e pensam: "como são corajosas"... Mas eu acredito: corajoso - de fato - é quem sai do sexto andar.
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